Diário de pesquisa, 3: escrevendo o projeto (II, os catálogos existentes)

Há 2 catálogos principais das teses e dissertações produzidas nos programas de pós-graduação em história entre a década de 1973 e 1994: o de Carlos Humberto Corrêa, que cobre o período de 1973 a 1985, e o de Maria Helena Rolim Capelato, que vai de 1985 a 1994. Até onde sei ambos estão esgotados para venda, e mesmo em sebos não é tão fácil assim de achá-los – o de Capelato um pouco mais fácil do que o de Corrêa. Na postagem anterior mencionei que, embora valiosos, ambos têm algumas lacunas que prejudicam seu uso como material de referência seguro e exaustivo.

O catálogo de Corrêa, lançado em 1987 pela Editora da UFSC, almeja reunir em um único volume todas as teses e dissertações da área de história produzidas desde a transição para o sistema nacional de pós-graduação (instituído no final dos anos de 1960, contando com as primeiras defesas em 1973, na USP) até o ano de 1985. O autor contou 771 trabalhos catalogados (644 dissertações e 117 teses), de 14 Programas de Pós-Graduação.

O catálogo de Capelato foi publicado em 1995, com apoio do CNPq. Com ajuda de uma equipe relativamente grande de professores e alunos bolsistas, foram registrados 1331 trabalhos (1092 dissertações e 239 teses) oriundos dos 19 Programas de Pós-Graduação. O recorte se sobrepõe ao de Corrêa para o ano de 1985 (embora haja discrepância dos trabalhos catalogados) e segue por dez anos, até 1994.

Somando os dois catálogos, temos pouco mais de 2000 trabalhos catalogados. Mas há diferenças importantes entre os dois que dificultam um pouco o trabalho do analista. O de Corrêa lista título do trabalho, autor, orientador, data (de defesa?) e banca examinadora, organizando as entradas por programa. O de Capelato traz autor, título do trabalho, resumo e orientador, organizando cada entrada por programa e por ano. É verdade que os atributos centrais (autor, título e orientador) constam em ambos, mas outras duas informações importantíssimas ficaram ausentes de um ou de outro – a banca examinadora (presente em Corrêa e ausente em Capelato) e o resumo do trabalho (presente em Capelato e ausente em Corrêa).

Na era da informática e da internet, cada programa de pós-graduação costuma ter em sua página uma listagem de teses e dissertações defendidas desde seu início, e alguns até já começaram o processo de digitalização desses materiais. Em termos de catalogação, o programa da UFF se destaca por incluir várias informações relevantes (autor, orientador, data da defesa, nível, páginas, volumes, numeração de série, banca de defesa, título do trabalho e resumo), mas nem todos os trabalhos estão digitalizados. No que se refere à digitalização, sabe-se que o da Unicamp já está completo, ou em estágio bastante avançado no processo. O problema, no entanto, é que não há, no site do programa, uma listagem de fácil acesso das teses e dissertações defendidas.

Assim, tendo em vista essa descentralização dos materiais e a falta de um padrão para as fichas dos catálogos, gostaria que o banco de dados que propus fosse capaz de agregar as informações mais importantes possíveis de serem reduzidas à ficha de catalogação. No estado atual de pré-preparação, a ficha conta com programa, data de defesa, nível, nome do autor, título, páginas, orientador e banca, com um campo extra para outras observações. Minhas ambições futuras se dividem entre as mais concretas (inclusão das palavras-chave) até as mais extravagantes (inclusão do resumo e da bibliografia), que devem ser gerenciadas conforme o destino dos possíveis financiamentos da pesquisa, ou estendidos ao longo do tempo para além do projeto inicial.

Penso que essas informações, quando compiladas em uma base de dados digital, podem nos dar informações preciosas sobre a historiografia produzida no âmbito da pós-graduação. É verdade que nada substitui o trabalho qualitativo, a leitura demorada de cada tese e dissertação, mas a mirada quantitativa e os cruzamentos dos dados levantados podem ser particularmente interessantes para entendermos as dinâmicas mais amplas do campo disciplinar – prevalências temáticas, mas também relações de orientação, composição de bancas, circulação de conceitos e de leituras, etc.

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Diário de Pesquisa, 2: escrevendo o projeto (I, o quadro conceitual)

Esta semana submeti, finalmente, o projeto para avaliação da Fapesp. Resolvi deixar aqui um relato sobre a feitura da peça que talvez possa ser de algum interesse, ainda que marginal. Antes de mais nada, registro os agradecimentos aos leitores e comentadores de versões preliminares do projeto – professora Karina Anhezini, professor Miguel Soares Palmeira, bem como seu excelente grupo de orientandos (e agregados) na USP. Tenho certeza de que a proposta ganhou em muito com cada comentário e pergunta; acredito que o texto “final” incorporou muitas das sugestões e respondeu em algum grau a maior parte dos comentários. O professor Hélio Rebello Cardoso Jr., que me orientou durante o doutorado, também tem sido um interlocutor importante e um incentivador sem o qual eu talvez já tivesse desistido da vida acadêmica.

Quando comecei a escrever o projeto, tinha pouca coisa em mente além da ideia mais ou menos confusa de construir um instrumento de pesquisa que facilitasse a tarefa de historiadores da historiografia interessados nos períodos mais recentes da historiografia brasileira – mais especificamente, a configuração que nossa produção tomou com a consolidação dos programas de pós-graduação como instâncias centrais na produção historiográfica brasileira. O problema é que essa tarefa (embora complicada) não me pareceu ser suficiente para que o projeto fosse financiado com uma bolsa – e conversas com alguns colegas e professores confirmaram essa impressão.

Muita gente sabe da minha desconfiança em torno de balanços bibliográficos, da ideia de tendência, das figuras de “escolas” ou “tradições” historiográficas… Em primeiro lugar, bons balanços presumem um domínio ao mesmo tempo quantitativo e qualitativo do tema que se vai recensear, que, nos dias atuais, desemboca em duas alternativas: (1) balanços muito especializados, com boa densidade de materiais, ou (2) balanços amplos, mas que deixam de fora grande quantidade de trabalhos (geralmente sob a justificativas sem grandes rigores de método, envolvendo representatividade, relevância, etc.). Os primeiros geralmente têm um público relativamente restrito; os segundos raramente tratam com justeza a produção vinda de lugares periféricos no campo.

Quanto às “tendências”, tenho sempre a impressão de que, em boa parte dos balanços bibliográficos, assume-se como tendência aquilo que se faz, ou que se gosta. Nas análises mais robustas, o problema da tendência é outro, de categorização: em que nível devemos localizar as tendências? Nos recortes cronológicos? Geográficos? Temáticos? Teóricos? Em um cruzamento de tudo isso, ou de alguns desses níveis? E o que o resultado desse cruzamento diz da área? Parece tudo um pouco nebuloso. E o próprio termo “tendência” já me causa algo de uma estranheza – associando rapidamente ao inglês “trend” e à tópica de “moda”, que, assim me parece, leva a caminhos nos quais é fácil deslizar para uma crítica superficial de “modismos” e dos temas que o recenseador considera mais ou menos “relevantes”.

Finalmente, “escolas” e “tradições” são o tipo de categoria de certo valor pedagógico, mas de baixíssimo valor analítico. Escola, porque a frouxidão dos critérios para se estabelecer o pertencimento a esse conjunto conduz rapidamente a monstros conceituais como “escola dos Annales”, que ninguém sabe direito dizer o que foi/é. (A pesquisa da Mariana Oses, sob orientação do professor Miguel, explora de maneira muito perspicaz a multitude de sentidos que subjazem ao “mito”). Tradição, tanto pior, que pode se referir a qualquer coisa cujo nexo com o nosso objeto não sabemos bem precisamente delimitar, mas que temos a sensação de que existe.

O problema é que, com essa minha chatice teórica, sobra muito pouco para justificar um estudo abrangente da historiografia universitária brasileira. Se não é para falar de tendência, de escolas ou de tradições, esse estudo fala de quê? Bem, aí optei por tirar a poeira dos meus livros do bom e velho Pierre Bourdieu, e achei que o conceito de campo poderia ser útil. Isso porque, embora Bourdieu nunca tenha produzido um trabalho sistemático, explicando cada cantinho do conceito, as suas inúmeras aplicações dão mostras de que se trata de uma ferramenta capaz de satisfazer minha avaliação de rigor (é um conceito que mobiliza categorias bem definidas) e, ao mesmo tempo, não prescreve grandes estruturas para o trabalho com as fontes (é no contato com elas que podemos, enfim, propor quais os atributos relevantes de trabalho). É verdade, esse potencial depende quase que inteiramente do rigor prático do próprio pesquisador, e o conceito pode, sim, se dar a usos menos rigorosos, sem problemas. Mas tendo em vista que o banco de dados lida com um conjunto de metadados sobre as teses e seus autores/orientadores, achei que o encaixe entre materiais e ferramentas seria particularmente rico. Veremos se o será ao longo da pesquisa.

Diário de Pesquisa, 1: uma introdução

Nesta nova série do blog, vou registrar o percurso do projeto de pesquisa mais ambicioso que já desenhei: o estudo global das teses e dissertações da área de História entre 1942 e 2000, que envolve, entre outras tarefas, a de catalogar e sistematizar a produção em um banco de dados único, padronizado e exaustivo. [1] Institucionalmente falando, o projeto ainda “não existe”, uma vez que, neste momento, ainda não é financiado por nenhuma agência de fomento. Apesar disso, o trabalho já começou há algum tempo, e não deve parar só pela falta de apoio financeiro e logístico.

Há 2 catálogos globais da área de História compilados e publicados: o primeiro, de Carlos Humberto Corrêa, foi publicado em 1987 pela Editora da UFSC, e compreende o período entre 1973 e 1985; o segundo, coordenado por Maria Helena Capelato, foi publicado em 3 volumes no ano de 1995 pela Xamã Editorial, e abrange o período entre 1985 e 1995. Até 1973, para os trabalhos produzidos sob o antigo regime de pós-graduação sob as cátedras na USP, contamos apenas com os levantamentos de Eurípedes Simões de Paula e Maria Regina da Cunha Rodrigues Simões de Paula, publicados, ambos, na Revista de História em 1971 e 1974, respectivamente. Ainda sobre o programa da USP, Laima Mesgravis produziu outro levantamento em 1983, publicado na Revista Brasileira de História. Há ainda um ou outro catálogo local publicado nas revistas da área, que, aos poucos, vamos compilando. Desde 95, no entanto, temos apenas aquilo que cada Programa catalogou de sua própria produção; alguns disponibilizam as listagens com mais ou menos informações em seus websites.

Nos anos 70, José Roberto do Amaral Lapa se debruçou sobre a produção da pós em História da USP entre 1943 e 1973, e teve acesso, também, aos projetos financiados pela Fapesp. Vinte anos depois, em 1992, temos A História no Brasil, de Carlos Fico e Ronald Polito, que fez a análise mais ampla de que temos registro no que se refere à historiografia brasileira contemporânea: a partir de um extenso levantamento de dados (teses e dissertações, periódicos, mercado editorial), Fico e Polito esboçaram uma importante avaliação sobre a área de História entre 1980 e 1989. Desde então, no entanto, não se tentou mais nada com o mesmo alcance.

Tendo em vista esse pano de fundo, vamos aos problemas: os catálogos de Corrêa e de Capelato estão incompletos, com algumas lacunas tornando inviável qualquer trabalho de análise ampla das teses e dissertações de História; nem todos os Programas de Pós disponibilizam suas listagens de maneira fácil e com informações mais completas (arrisco dizer que o da UFF é o melhor, seguido pela UFRGS); e boa parte dos balanços produzidos desde então é muito local, ficando restritos aos Programas em que os autores atuavam. A ideia do projeto é justamente formular um catálogo amplo, centralizado e padronizado, a partir do qual se possa fazer algumas análises sobre o nosso campo, superando as lacunas dos catálogos anteriores e compilando o máximo de informações úteis aos pesquisadores.

O professor Carlos Fico me respondeu, por e-mail, dizendo que já havia proposto algumas vezes essa tarefa para a Anpuh e, mais recentemente, ao Fórum de Coordenadores. Apesar dessas sugestões, no entanto, não me recordo de ver qualquer iniciativa nesse sentido desde o catálogo de Capelato, publicado em 1995 – 22 anos atrás. Alguns professores com os quais falei até agora demonstraram bastante interesse na ideia e me encorajaram o suficiente para que eu transformasse uma ambição meio sem forma em um projeto mais ou menos bem delimitado de pesquisa – e é esse projeto que gostaria de documentar no blogue.

Enfim, é isso – a “pedra fundamental”. Quem sabe eventualmente um financiamento aparece, mesmo nessa situação terrível que vivem as agências de fomento (principalmente CNPq e CAPES). Até lá, como bom pesquisador brasileiro, vou trabalhando “como dá”.


[1] Há a tese de cátedra de Alfredo Ellis Jr., de 1939, mas, ao menos por enquanto, o banco deve ignorar as teses de cátedra e de livre-docência, ficando esses materiais para uma segunda ou terceira fase do trabalho.

Sobre Usos do Passado

Continuando a tratar do fim do monopólio dos historiadores sobre o passado, vamos pensar um pouco sobre o problema dos vários usos do passado.

Usos do Passado

O passado não é propriedade de ninguém. Pode-se dizer diferentes coisas sobre ele com diferentes objetivos e por diferentes meios. Por muito tempo, foi privilégio do historiador produzir as narrativas legítimas que comporiam “a história da nação”, mas a situação mudou, e, hoje, vários grupos reivindicam o direito de contar sua própria história, enquanto o mercado editorial aproveita a conjunção da curiosidade pela história que atravessa nossa sociedade e o poder dos temas polêmicos com títulos sensacionalistas para publicar e vender livros dos mais variados níveis de qualidade. Uma vez que essas narrativas não necessariamente seguem as normas e os critérios da historiografia profissionalizada, muitos historiadores se preocupam com o problema da verdade e da adequação dessas narrativas “ao passado tal qual ele aconteceu”. Outros, ainda, conscientes de que toda história é necessariamente seletiva, incompleta, orientada por estruturas pré-narrativas que dão a todo relato seus limites, acham preocupante que certos pontos de vista sejam considerados legítimos e dignos de serem considerados na arena pública do debate (como o ponto de vista dos militares e dos torturadores durante o período da Ditadura Militar, ou, de maneira mais geral, o ponto de vista dos algozes e perpetradores de massacres).

Como já demonstraram Hayden White, Frank Ankersmit e vários outros envolvidos no debate narrativista, o texto de história não é apenas um catálogo de fatos em ordem cronológica. Essas “frases descritivas”, do tipo “Zé da Silva nasceu no dia 10 de Janeiro de 1901”, são verificáveis, e, portanto, passíveis de serem refutadas com mais “facilidade”. O problema surge quando, inevitavelmente, damos um sentido a um conjunto de fatos isolados. É muito difícil, para não dizer impossível, escolher um único sentido possível como o correto, infalível e além de qualquer dúvida – o que, mais uma vez, não quer dizer que se possa dizer qualquer coisa. Michel de Certeau nos lembra que o conhecimento histórico será sempre o conhecimento do provável, mas isso não ilumina muita coisa, porque a probabilidade ainda é pouco frente as ambições dos historiadores. Carlo Ginzburg rejeita as teses de White com base em que elas poderiam ser usadas para fins horrendos, mas esse tipo de argumento é muito ruim, do ponto de vista lógico, e só tem apelo porque mobiliza paixões éticas e políticas.

Ainda não aprendemos a viver nesse mundo novo em que não cabe mais exclusivamente a um grupo de indivíduos avaliar as narrativas que compõem A História. Países como Japão, Rússia e Turquia vem avançando lenta mas decididamente sobre os livros de história que circulam em suas escolas, apagando sistematicamente quaisquer narrativas que possam ferir um certo senso de orgulho patriótico. No Brasil, a conjuntura política recente favoreceu um tipo de querela em torno da história da Ditadura Militar que frequentemente coloca toda a instituição da pesquisa histórica em cheque sob acusações de “distorções políticas” e “revanchismo”. Movimentos políticos avançam suas pautas de que apenas suas experiências e suas vivências próprias podem fundamentar as histórias de seus grupos, e que os “forasteiros” não são capazes de narrar adequadamente esses passados. No meio disso tudo, há quem acredite, de maneira otimista, na capacidade crítica do debate público de ideias, em que a voz dos especialistas (os historiadores) é apenas mais uma entre tantas. Outros apelam para que os historiadores “se atualizem”, transformem seu trabalho, incorporando novas maneiras de pesquisar e de comunicar suas pesquisas, em um último esforço de tornar a história dos historiadores relevante para a sociedade. Tempos de experimentação.

A História dos Historiadores e as Outras Histórias

O leitor R.A.L. chamou a atenção, em um comentário anterior, para o tópico dos livros de história escritos por não-historiadores. Vou tentar dar meus pitacos, mas não pretendo afirmar que minhas posições sejam representativas da maioria dos historiadores. Penso que o problema pode se desdobrar infinitamente, mas separei três eixos que considero mais interessantes: as histórias dos historiadores e dos “outros”, os usos do passado e o problema do método.

Há uma “história dos historiadores”?

Há muitos campos da história que são dominados, no Brasil e lá fora, por pesquisadores de outras disciplinas. A história da ciência, por exemplo, conta com grande participação de pesquisadores das sub-disciplinas estudadas (físicos, médicos, biólogos). Alguns casos, como a história da filosofia, a história da arte e a história da literatura, são quase que completamente dominados por praticantes dessas disciplinas (filósofos, críticos de arte e críticos literários, respectivamente), e os “historiadores de ofício” frequentemente ignoraram esses campos em si, ou, pelo menos, a vasta literatura produzida nesses campos. Francisco Iglésias (um importante historiador brasileiro, que se ocupou longamente com a avaliação da área de História) afirmou, nos idos anos de 1980, que as histórias do Direito produzidas por juristas “valem pouco ou até quase nada como História”. Outro exemplo ilustrativo desse descompasso entre os departamentos de história e essas modalidades liminares de história é a obra de Michel Foucault: muito da incompreensão de algumas de suas obras, como As Palavras e as Coisas, ou A Arqueologia do Saber, se deve a que Foucault dialogou majoritariamente com uma tradição de história da ciência que se desenvolveu largamente fora dos departamentos de história – aquela de Bachelard e Canguilhem.

Mais recentemente, no entanto, a comoção veio das áreas mais canônicas da história, quando jornalistas demonstraram interesse em publicar obras sobre “a história do Brasil”. Mesmo descontando aqueles textos de baixíssimo nível de pesquisa e de apresentação, como os Guias Politicamente Incorretos, ainda resta um grande filão editorial em torno de sínteses históricas, ou de “grandes acontecimentos” (como a chegada da Corte Portuguesa e o processo de Independência) que autores e editoras souberam explorar comercialmente e alavancaram grande número de vendas. Para além do esperado lamento por parte de alguns historiadores sobre essa “invasão” inapropriada por parte de pessoas “sem noção de pesquisa histórica”, acho mais significativa a resposta na forma da publicação renovada de livros de divulgação escritos, aí sim, por historiadores – Jaime Pinsky escreveu seu Por que gostamos de história?, Luciano Figueiredo organizou a História do Brasil para Ocupados, e Lilia Schwarcz e Heloisa Starling publicaram Brasil: uma Biografia – todos com boa vendagem nas livrarias.

Tendo tudo isso em vista, parece-me que chegamos a dois descompassos diferentes: um referente aos campos liminares (por ex., as histórias disciplinares) e outro referente às concepções de história dos “historiadores de ofício” e os “leigos”. Quanto ao primeiro, minha percepção pessoal (e, por isso, de pouco ou nenhum valor “científico”) é de que a maioria dos “historiadores de ofício”, pelo menos no Brasil, nunca se interessou muito em escrever as histórias que não fossem as histórias do político, do social ou do econômico, em seus sentidos mais amplos. Mesmo com nossos grandes historiadores da cultura, o problema de fundo é sempre “a sociedade brasileira”, de modo que a história cultural seria sempre uma nova maneira de abordar e entender a dinâmica social da população brasileira. Nesse sentido, as histórias da arte, da filosofia ou da ciência seriam tarefas de “menor importância”, uma vez que são frequentemente “ensimesmadas”, ilhadas do que seria o “contexto maior” – novamente, a “sociedade brasileira”.

Quanto ao segundo descompasso, enquanto a historiografia produzida pelos pesquisadores mudou muito, especializou-se em torno de alguns temas e construiu ferramentas muito sofisticadas para analisar fenômenos históricos (voltaremos a esse problema na parte 3, sobre “o método”), para parte significativa da população, os atrativos da história permanecem pautados pelas chaves da curiosidade, dos eventos “picantes”, do olhar de curto alcance (interesse saciado pelos jornalistas, e muito semelhante ao tipo de interesse fomentado na grande mídia), ou então pelas grandes explicações históricas das nossas mazelas (vemos, recentemente, essa ideia estranha de que “a corrupção começou com Pedro Álvares Cabral”, como se se tratasse de um fenômeno único atravessando os séculos). A “história dos historiadores” raramente se dá a saciar esse tipo de curiosidade, e acho legítimo perguntar se ela o deveria fazer – sob o risco de ser acusado de academicismo, minha resposta pessoal é de que não.

Em tempo, é justo lembrar que o descompasso entre a “história dos historiadores” e a curiosidade do público não é, em si, ruim, e tampouco é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado dos reenactments é relativamente enorme, e mobiliza muitas pessoas desejosas de ter um contato “mais direto” com o passado. Os filmes de temáticas históricas pululam mundo afora. A “história dos historiadores” não pode oferecer nada disso sem repensar completamente seus fundamentos mais básicos. Historiadores sempre poderão oferecer seus serviços como consultores desse tipo de produto cultural, mas esperar que ocupem posições de comando é tolice – e de uma grande arrogância por parte dos pesquisadores. Não há saída mágica; se o passado não é propriedade de ninguém, a tarefa do historiador permanece ao mesmo tempo humilde e desafiadora: produzir conhecimento sobre o passado que desestabilize nossas certezas e mostre que o mundo (e a história) é maior que nosso próprio umbigo, com ou sem apelo comercial.

Para que serve teoria da história? (Série Teoria da História, Parte 3)

Qual o papel da teoria na famosa “oficina” do historiador? Em que se beneficia o historiador ao fazer sua reflexão teórica? Por muito tempo o topos tão bem expresso por Pierre Chaunu, da tentação epistemológica, exerceu forte influência na historiografia profissional, e, talvez por isso, a questão da utilidade da teoria para a prática historiográfica seja ainda bastante nebulosa.

Em seu aspecto mais instrumental, a teoria da história é o que permite ao historiador esclarecer os conceitos que usa para dar sentido ao passado. Essa tarefa é importante não só por questão de rigor, mas também porque a história (enquanto conhecimento) lida com vocabulário corrente para explicar os fenômenos que estuda. Diferentemente da matemática, da física ou da química, que desenvolveram linguagens específicas, a história (como boa parte das outras ciências humanas e sociais) lida com uma estrutura explicativa que é muito próxima da linguagem corriqueira, do dia-a-dia, e, por isso, é preciso um esforço para delimitar o significado e o sentido dos seus conceitos. Alguns exemplos: a palavra “experiência” designa conceitos muito diferentes em E. P. Thompson ou em Foucault; “representação” se refere a fenômenos muito diferentes nos trabalhos de GInzburg, de Chartier ou de Ankersmit; o “contexto” da escola de Cambridge tem sentido muito diferente do sentido corrente da palavra. Assim, nesse primeiro aspecto, a teoria da história é a disciplina que permite ao historiador delimitar aquilo que estuda.

Há outros aspectos da teoria da história, no entanto, que são menos diretamente instrumentalizados no trabalho dos historiadores. Isso porque certas reflexões teóricas não lidam necessariamente com os conceitos usados para dar sentido ao passado, mas sim com o próprio trabalho de reunir evidências e produzir uma representação do passado com ambições de verdade e intenções cognitivas. Outras, ainda, investigam fenômenos que são condição de possibilidade para a empreitada dos historiadores, como o tempo. Nesses casos é mais difícil de perceber que tipo de utilidade a teoria da história tem para os historiadores em seu trabalho cotidiano.

Sempre se pode argumentar que a análise abstrata da racionalidade peculiar que permite ao historiador reunir materiais dispersos em uma narrativa com sentido bem definido não tem qualquer relação com a produção de um texto de história, e que, por isso, esse tipo de conhecimento não teria relação com a qualidade da narrativa histórica resultante do trabalho. Mas, então, só tem valor a reflexão teórica instrumental? Acho difícil sustentar tal visão.

Em que pese não terem ação direta e visível sobre a narrativa do historiador, os estudos sobre o caráter narrativo do texto histórico, o problema da representação histórica, as diversas relações possíveis com o passado – todos centrais para a teoria da história – têm o mérito de esclarecer os entornos do trabalho do historiador. Em outras palavras, a teoria da história é capaz de mostrar não apenas como funciona o texto histórico “em si”, mas também como esse texto funciona em relação à sua exterioridade – seus autores e leitores, as instituições em que circulam, as práticas e os discursos que sustentam. Se nós, historiadores, continuamos achando que isso “não presta para nada”… bem, o problema é nosso.

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