Diário de Pesquisa, 4: financiamento

Depois de algum tempo sem atualizações em relação ao projeto, escrevo para registrar que finalmente consegui um primeiro financiamento. Fui selecionado em edital do PPGHis da Unesp/Assis referente a uma bolsa PNPD/CAPES. Esse financiamento vai me permitir começar esse projeto grande, e ainda aguardo o resultado da Fapesp para poder ter uma noção melhor do futuro.

O primeiro passo, nos próximos meses, deve ser um pente fino nos registros que coligi até agora para poder planejar as visitas que serão necessárias. Como a verba do PNPD é consideravelmente mais curta que a da Fapesp, será preciso fazer uma boa lista de prioridades.

Até mês que vem devo apresentar um seminário em Assis para apresentar o projeto à comunidade. Para tanto, estou preparando uma pequena revisão de literatura que permitirá situar melhor a ambição da pesquisa.

Enfim, agora, com verbas, o ritmo deve melhorar.

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Qualis das revistas de teoria e história da historiografia

A CAPES, órgão do Ministério da Educação, tem seu sistema institucional de avaliação de periódicos – o chamado Qualis. Cada área define (com alguma autonomia, até onde sei) os critérios para classificar os periódicos científicos em que publicam seus pesquisadores em 8 estratos. Em ordem decrescente de “qualidade”, os estratos são: A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C.

Na avaliação referente ao quadriênio 2013-2016 finalmente algumas das revistas internacionais mais importantes na nossa área foram incorporadas ao sistema. Em uma postagem futura, gostaria de discutir mais especificamente os critérios do Qualis, mas por ora me parece suficiente dizer que encarei com estranheza a classificação de Rethinking History e Práticas da História – ambas sub-avaliadas, no meu modo de ver. Aliás, também me escapam completamente os motivos pelos quais o Journal of the Philosophy of History e Storia della Storiografia não foram classificados no estrato A1.

Seguem as avaliações (da área de História) dos periódicos nacionais e internacionais cuja proposta editorial engloba os campos da teoria e e da história da historiografia:

Há ainda os setores de história intelectual, das ideias e da ciência, que contam com algumas de suas revistas mais tradicionais (Isis – A1, para a história da ciência, por exemplo), mas que ainda têm omissões importantes (Modern Intellectual History, Intellectual History Review, Journal of the History of Ideas, por exemplo). Isso porque o sistema só classifica revistas em que autores brasileiros publicaram ao menos 1 artigo. Assim, essas omissões parecem sinalizar o grau ainda avançado da timidez de internacionalização da pesquisa brasileira, e o quanto ainda temos de avançar.

História da historiografia e história da ciência

Postagem rápida com um pedido de esclarecimentos e sugestões. Há algum tempo percebo uma tendência mútua de desconhecimento ou de pouco interesse entre a história da historiografia e a história da ciência. Esta, aliás, há muito é considerada uma subdisciplina quase que independente da “história dos historiadores” – o que pode começar a explicar o parcial desconhecimento de muitos historiadores com relação a ela. Da parte da história da ciência, parece pesar que as ciências da natureza ocupam lá um lugar de destaque em relação às ciências humanas. É claro que essa observação geral é, como qualquer outra, vulnerável a várias exceções. Na verdade, adoraria que derrubassem essa minha impressão com evidências palpáveis de que o diálogo entre os historiadores da historiografia e os historiadores da ciência é, sim, vigoroso e pulsante. Indicações?

Em nota positiva, recentemente Tiago Santos Almeida organizou um volume com textos de Lorraine Daston, historiadora da ciência lotada no Max Planck Institute for the History of Science, na Alemanha. Com tradução de Derley Menezes Alves e Francine Iegelski, o volume é um passo adiante para cobrir esse vazio. Confira no site da editora LiberArs.

Diário de pesquisa, 3: escrevendo o projeto (II, os catálogos existentes)

Há 2 catálogos principais das teses e dissertações produzidas nos programas de pós-graduação em história entre a década de 1973 e 1994: o de Carlos Humberto Corrêa, que cobre o período de 1973 a 1985, e o de Maria Helena Rolim Capelato, que vai de 1985 a 1994. Até onde sei ambos estão esgotados para venda, e mesmo em sebos não é tão fácil assim de achá-los – o de Capelato um pouco mais fácil do que o de Corrêa. Na postagem anterior mencionei que, embora valiosos, ambos têm algumas lacunas que prejudicam seu uso como material de referência seguro e exaustivo.

O catálogo de Corrêa, lançado em 1987 pela Editora da UFSC, almeja reunir em um único volume todas as teses e dissertações da área de história produzidas desde a transição para o sistema nacional de pós-graduação (instituído no final dos anos de 1960, contando com as primeiras defesas em 1973, na USP) até o ano de 1985. O autor contou 771 trabalhos catalogados (644 dissertações e 117 teses), de 14 Programas de Pós-Graduação.

O catálogo de Capelato foi publicado em 1995, com apoio do CNPq. Com ajuda de uma equipe relativamente grande de professores e alunos bolsistas, foram registrados 1331 trabalhos (1092 dissertações e 239 teses) oriundos dos 19 Programas de Pós-Graduação. O recorte se sobrepõe ao de Corrêa para o ano de 1985 (embora haja discrepância dos trabalhos catalogados) e segue por dez anos, até 1994.

Somando os dois catálogos, temos pouco mais de 2000 trabalhos catalogados. Mas há diferenças importantes entre os dois que dificultam um pouco o trabalho do analista. O de Corrêa lista título do trabalho, autor, orientador, data (de defesa?) e banca examinadora, organizando as entradas por programa. O de Capelato traz autor, título do trabalho, resumo e orientador, organizando cada entrada por programa e por ano. É verdade que os atributos centrais (autor, título e orientador) constam em ambos, mas outras duas informações importantíssimas ficaram ausentes de um ou de outro – a banca examinadora (presente em Corrêa e ausente em Capelato) e o resumo do trabalho (presente em Capelato e ausente em Corrêa).

Na era da informática e da internet, cada programa de pós-graduação costuma ter em sua página uma listagem de teses e dissertações defendidas desde seu início, e alguns até já começaram o processo de digitalização desses materiais. Em termos de catalogação, o programa da UFF se destaca por incluir várias informações relevantes (autor, orientador, data da defesa, nível, páginas, volumes, numeração de série, banca de defesa, título do trabalho e resumo), mas nem todos os trabalhos estão digitalizados. No que se refere à digitalização, sabe-se que o da Unicamp já está completo, ou em estágio bastante avançado no processo. O problema, no entanto, é que não há, no site do programa, uma listagem de fácil acesso das teses e dissertações defendidas.

Assim, tendo em vista essa descentralização dos materiais e a falta de um padrão para as fichas dos catálogos, gostaria que o banco de dados que propus fosse capaz de agregar as informações mais importantes possíveis de serem reduzidas à ficha de catalogação. No estado atual de pré-preparação, a ficha conta com programa, data de defesa, nível, nome do autor, título, páginas, orientador e banca, com um campo extra para outras observações. Minhas ambições futuras se dividem entre as mais concretas (inclusão das palavras-chave) até as mais extravagantes (inclusão do resumo e da bibliografia), que devem ser gerenciadas conforme o destino dos possíveis financiamentos da pesquisa, ou estendidos ao longo do tempo para além do projeto inicial.

Penso que essas informações, quando compiladas em uma base de dados digital, podem nos dar informações preciosas sobre a historiografia produzida no âmbito da pós-graduação. É verdade que nada substitui o trabalho qualitativo, a leitura demorada de cada tese e dissertação, mas a mirada quantitativa e os cruzamentos dos dados levantados podem ser particularmente interessantes para entendermos as dinâmicas mais amplas do campo disciplinar – prevalências temáticas, mas também relações de orientação, composição de bancas, circulação de conceitos e de leituras, etc.

Diário de Pesquisa, 2: escrevendo o projeto (I, o quadro conceitual)

Esta semana submeti, finalmente, o projeto para avaliação da Fapesp. Resolvi deixar aqui um relato sobre a feitura da peça que talvez possa ser de algum interesse, ainda que marginal. Antes de mais nada, registro os agradecimentos aos leitores e comentadores de versões preliminares do projeto – professora Karina Anhezini, professor Miguel Soares Palmeira, bem como seu excelente grupo de orientandos (e agregados) na USP. Tenho certeza de que a proposta ganhou em muito com cada comentário e pergunta; acredito que o texto “final” incorporou muitas das sugestões e respondeu em algum grau a maior parte dos comentários. O professor Hélio Rebello Cardoso Jr., que me orientou durante o doutorado, também tem sido um interlocutor importante e um incentivador sem o qual eu talvez já tivesse desistido da vida acadêmica.

Quando comecei a escrever o projeto, tinha pouca coisa em mente além da ideia mais ou menos confusa de construir um instrumento de pesquisa que facilitasse a tarefa de historiadores da historiografia interessados nos períodos mais recentes da historiografia brasileira – mais especificamente, a configuração que nossa produção tomou com a consolidação dos programas de pós-graduação como instâncias centrais na produção historiográfica brasileira. O problema é que essa tarefa (embora complicada) não me pareceu ser suficiente para que o projeto fosse financiado com uma bolsa – e conversas com alguns colegas e professores confirmaram essa impressão.

Muita gente sabe da minha desconfiança em torno de balanços bibliográficos, da ideia de tendência, das figuras de “escolas” ou “tradições” historiográficas… Em primeiro lugar, bons balanços presumem um domínio ao mesmo tempo quantitativo e qualitativo do tema que se vai recensear, que, nos dias atuais, desemboca em duas alternativas: (1) balanços muito especializados, com boa densidade de materiais, ou (2) balanços amplos, mas que deixam de fora grande quantidade de trabalhos (geralmente sob a justificativas sem grandes rigores de método, envolvendo representatividade, relevância, etc.). Os primeiros geralmente têm um público relativamente restrito; os segundos raramente tratam com justeza a produção vinda de lugares periféricos no campo.

Quanto às “tendências”, tenho sempre a impressão de que, em boa parte dos balanços bibliográficos, assume-se como tendência aquilo que se faz, ou que se gosta. Nas análises mais robustas, o problema da tendência é outro, de categorização: em que nível devemos localizar as tendências? Nos recortes cronológicos? Geográficos? Temáticos? Teóricos? Em um cruzamento de tudo isso, ou de alguns desses níveis? E o que o resultado desse cruzamento diz da área? Parece tudo um pouco nebuloso. E o próprio termo “tendência” já me causa algo de uma estranheza – associando rapidamente ao inglês “trend” e à tópica de “moda”, que, assim me parece, leva a caminhos nos quais é fácil deslizar para uma crítica superficial de “modismos” e dos temas que o recenseador considera mais ou menos “relevantes”.

Finalmente, “escolas” e “tradições” são o tipo de categoria de certo valor pedagógico, mas de baixíssimo valor analítico. Escola, porque a frouxidão dos critérios para se estabelecer o pertencimento a esse conjunto conduz rapidamente a monstros conceituais como “escola dos Annales”, que ninguém sabe direito dizer o que foi/é. (A pesquisa da Mariana Oses, sob orientação do professor Miguel, explora de maneira muito perspicaz a multitude de sentidos que subjazem ao “mito”). Tradição, tanto pior, que pode se referir a qualquer coisa cujo nexo com o nosso objeto não sabemos bem precisamente delimitar, mas que temos a sensação de que existe.

O problema é que, com essa minha chatice teórica, sobra muito pouco para justificar um estudo abrangente da historiografia universitária brasileira. Se não é para falar de tendência, de escolas ou de tradições, esse estudo fala de quê? Bem, aí optei por tirar a poeira dos meus livros do bom e velho Pierre Bourdieu, e achei que o conceito de campo poderia ser útil. Isso porque, embora Bourdieu nunca tenha produzido um trabalho sistemático, explicando cada cantinho do conceito, as suas inúmeras aplicações dão mostras de que se trata de uma ferramenta capaz de satisfazer minha avaliação de rigor (é um conceito que mobiliza categorias bem definidas) e, ao mesmo tempo, não prescreve grandes estruturas para o trabalho com as fontes (é no contato com elas que podemos, enfim, propor quais os atributos relevantes de trabalho). É verdade, esse potencial depende quase que inteiramente do rigor prático do próprio pesquisador, e o conceito pode, sim, se dar a usos menos rigorosos, sem problemas. Mas tendo em vista que o banco de dados lida com um conjunto de metadados sobre as teses e seus autores/orientadores, achei que o encaixe entre materiais e ferramentas seria particularmente rico. Veremos se o será ao longo da pesquisa.

Diário de Pesquisa, 1: uma introdução

Nesta nova série do blog, vou registrar o percurso do projeto de pesquisa mais ambicioso que já desenhei: o estudo global das teses e dissertações da área de História entre 1942 e 2000, que envolve, entre outras tarefas, a de catalogar e sistematizar a produção em um banco de dados único, padronizado e exaustivo. [1] Institucionalmente falando, o projeto ainda “não existe”, uma vez que, neste momento, ainda não é financiado por nenhuma agência de fomento. Apesar disso, o trabalho já começou há algum tempo, e não deve parar só pela falta de apoio financeiro e logístico.

Há 2 catálogos globais da área de História compilados e publicados: o primeiro, de Carlos Humberto Corrêa, foi publicado em 1987 pela Editora da UFSC, e compreende o período entre 1973 e 1985; o segundo, coordenado por Maria Helena Capelato, foi publicado em 3 volumes no ano de 1995 pela Xamã Editorial, e abrange o período entre 1985 e 1995. Até 1973, para os trabalhos produzidos sob o antigo regime de pós-graduação sob as cátedras na USP, contamos apenas com os levantamentos de Eurípedes Simões de Paula e Maria Regina da Cunha Rodrigues Simões de Paula, publicados, ambos, na Revista de História em 1971 e 1974, respectivamente. Ainda sobre o programa da USP, Laima Mesgravis produziu outro levantamento em 1983, publicado na Revista Brasileira de História. Há ainda um ou outro catálogo local publicado nas revistas da área, que, aos poucos, vamos compilando. Desde 95, no entanto, temos apenas aquilo que cada Programa catalogou de sua própria produção; alguns disponibilizam as listagens com mais ou menos informações em seus websites.

Nos anos 70, José Roberto do Amaral Lapa se debruçou sobre a produção da pós em História da USP entre 1943 e 1973, e teve acesso, também, aos projetos financiados pela Fapesp. Vinte anos depois, em 1992, temos A História no Brasil, de Carlos Fico e Ronald Polito, que fez a análise mais ampla de que temos registro no que se refere à historiografia brasileira contemporânea: a partir de um extenso levantamento de dados (teses e dissertações, periódicos, mercado editorial), Fico e Polito esboçaram uma importante avaliação sobre a área de História entre 1980 e 1989. Desde então, no entanto, não se tentou mais nada com o mesmo alcance.

Tendo em vista esse pano de fundo, vamos aos problemas: os catálogos de Corrêa e de Capelato estão incompletos, com algumas lacunas tornando inviável qualquer trabalho de análise ampla das teses e dissertações de História; nem todos os Programas de Pós disponibilizam suas listagens de maneira fácil e com informações mais completas (arrisco dizer que o da UFF é o melhor, seguido pela UFRGS); e boa parte dos balanços produzidos desde então é muito local, ficando restritos aos Programas em que os autores atuavam. A ideia do projeto é justamente formular um catálogo amplo, centralizado e padronizado, a partir do qual se possa fazer algumas análises sobre o nosso campo, superando as lacunas dos catálogos anteriores e compilando o máximo de informações úteis aos pesquisadores.

O professor Carlos Fico me respondeu, por e-mail, dizendo que já havia proposto algumas vezes essa tarefa para a Anpuh e, mais recentemente, ao Fórum de Coordenadores. Apesar dessas sugestões, no entanto, não me recordo de ver qualquer iniciativa nesse sentido desde o catálogo de Capelato, publicado em 1995 – 22 anos atrás. Alguns professores com os quais falei até agora demonstraram bastante interesse na ideia e me encorajaram o suficiente para que eu transformasse uma ambição meio sem forma em um projeto mais ou menos bem delimitado de pesquisa – e é esse projeto que gostaria de documentar no blogue.

Enfim, é isso – a “pedra fundamental”. Quem sabe eventualmente um financiamento aparece, mesmo nessa situação terrível que vivem as agências de fomento (principalmente CNPq e CAPES). Até lá, como bom pesquisador brasileiro, vou trabalhando “como dá”.


[1] Há a tese de cátedra de Alfredo Ellis Jr., de 1939, mas, ao menos por enquanto, o banco deve ignorar as teses de cátedra e de livre-docência, ficando esses materiais para uma segunda ou terceira fase do trabalho.

Sobre Usos do Passado

Continuando a tratar do fim do monopólio dos historiadores sobre o passado, vamos pensar um pouco sobre o problema dos vários usos do passado.

Usos do Passado

O passado não é propriedade de ninguém. Pode-se dizer diferentes coisas sobre ele com diferentes objetivos e por diferentes meios. Por muito tempo, foi privilégio do historiador produzir as narrativas legítimas que comporiam “a história da nação”, mas a situação mudou, e, hoje, vários grupos reivindicam o direito de contar sua própria história, enquanto o mercado editorial aproveita a conjunção da curiosidade pela história que atravessa nossa sociedade e o poder dos temas polêmicos com títulos sensacionalistas para publicar e vender livros dos mais variados níveis de qualidade. Uma vez que essas narrativas não necessariamente seguem as normas e os critérios da historiografia profissionalizada, muitos historiadores se preocupam com o problema da verdade e da adequação dessas narrativas “ao passado tal qual ele aconteceu”. Outros, ainda, conscientes de que toda história é necessariamente seletiva, incompleta, orientada por estruturas pré-narrativas que dão a todo relato seus limites, acham preocupante que certos pontos de vista sejam considerados legítimos e dignos de serem considerados na arena pública do debate (como o ponto de vista dos militares e dos torturadores durante o período da Ditadura Militar, ou, de maneira mais geral, o ponto de vista dos algozes e perpetradores de massacres).

Como já demonstraram Hayden White, Frank Ankersmit e vários outros envolvidos no debate narrativista, o texto de história não é apenas um catálogo de fatos em ordem cronológica. Essas “frases descritivas”, do tipo “Zé da Silva nasceu no dia 10 de Janeiro de 1901”, são verificáveis, e, portanto, passíveis de serem refutadas com mais “facilidade”. O problema surge quando, inevitavelmente, damos um sentido a um conjunto de fatos isolados. É muito difícil, para não dizer impossível, escolher um único sentido possível como o correto, infalível e além de qualquer dúvida – o que, mais uma vez, não quer dizer que se possa dizer qualquer coisa. Michel de Certeau nos lembra que o conhecimento histórico será sempre o conhecimento do provável, mas isso não ilumina muita coisa, porque a probabilidade ainda é pouco frente as ambições dos historiadores. Carlo Ginzburg rejeita as teses de White com base em que elas poderiam ser usadas para fins horrendos, mas esse tipo de argumento é muito ruim, do ponto de vista lógico, e só tem apelo porque mobiliza paixões éticas e políticas.

Ainda não aprendemos a viver nesse mundo novo em que não cabe mais exclusivamente a um grupo de indivíduos avaliar as narrativas que compõem A História. Países como Japão, Rússia e Turquia vem avançando lenta mas decididamente sobre os livros de história que circulam em suas escolas, apagando sistematicamente quaisquer narrativas que possam ferir um certo senso de orgulho patriótico. No Brasil, a conjuntura política recente favoreceu um tipo de querela em torno da história da Ditadura Militar que frequentemente coloca toda a instituição da pesquisa histórica em cheque sob acusações de “distorções políticas” e “revanchismo”. Movimentos políticos avançam suas pautas de que apenas suas experiências e suas vivências próprias podem fundamentar as histórias de seus grupos, e que os “forasteiros” não são capazes de narrar adequadamente esses passados. No meio disso tudo, há quem acredite, de maneira otimista, na capacidade crítica do debate público de ideias, em que a voz dos especialistas (os historiadores) é apenas mais uma entre tantas. Outros apelam para que os historiadores “se atualizem”, transformem seu trabalho, incorporando novas maneiras de pesquisar e de comunicar suas pesquisas, em um último esforço de tornar a história dos historiadores relevante para a sociedade. Tempos de experimentação.