Por que as humanidades?

Por Martin Jay, professor do departamento de história da UC-Berkeley

O relatório da Academia Americana de Artes e Ciências sobre o estado das humanidades e ciências sociais, “The Heart of the Matter“, soa como um lamento familiar, que reverberou ao menos desde os anos de 1960. O boom vivido no pós-guerra, que ergueu muitas empreitadas tradicionais e lançou várias outras novas, foi seguido de uma lenta erosão da confiança no valor e na missão do que não podia ser medido diretamente em termos instrumentais ou monetários. Com o cenário da diminuição dos prospectos de emprego no instável período posterior à Grande Recessão, essa erosão levou ao declínio radical de matrículas e à exaustão do financiamento para muitos programas antes robustos. Como resultado, pareceu imperativo a alguns “justificar” [“make a case”] as humanidades e ciências sociais, divulgando as funções benéficas delas em nossa sociedade.

Por falta de espaço para tratar dessa questão para ambas, permitam-me focar apenas nas humanidades, das quais o valor pode ser menos auto-evidente em nosso contexto atual. Alguns gostariam de nos fazer acreditar – de maneira errada, para mim – que os professores das humanidades são os próprios responsáveis pela queda nas matrículas em suas disciplinas por desafiarem e revisarem o anteriormente aceito e altamente restritivo cânone de “grandes obras” e “grandes autores”. Eles não apenas redescobriram e incluíram obras de mulheres e minorias raciais nos seus cursos mas também desenvolveram novos métodos interpretativos e alternativas teóricas controversas. Aqueles que se opunham a tais desenvolvimentos diziam que os estudantes estavam ignorando os clássicos, e acusaram os inovadores de desvalorizarem as grandes obras ao dar muita atenção aos seus contextos históricos ou ao exporem sua cumplicidade com hierarquias prevalentes de poder e privilégio. Essa disputa interna, que foi mais acirrada nos anos de 1980, deixou uma suspeita entre muitos de fora da academia de que as humanidades haviam abandonado seus papéis elevados de guardiães de nossa herança cultural e transmissores de nossos valores fundamentais.

Seria questionável, no entanto, relacionar as quedas nas matrículas de hoje com o crescimento da última geração, pois durante o período das discordâncias vociferantes nas humanidades grandes números de estudantes se graduaram em departamentos voltados à literatura, história da arte e outros fenômenos culturais. Apesar da reprovação de seus críticos, as humanidades emergiram de seus debates internos em uma posição intelectual muito mais robusta do que tinha antes. Ao invés de se contentarem em dar um verniz de literacia cultural para poucos privilegiados ou afirmarem de maneira presunçosa a superioridade das tradições recebidas, elas se tornaram mais reflexivas sobre seu papel na sociedade, mais insistentes em reconhecer o lado sombrio do elitismo cultural e mais determinadas a desnudar os dispositivos que a cultura usa para consolar e mistificar. Não mais se esforçando para revelar personalidades “bem acabadas”, elas aprenderam a criá-las [to nurture] mais irregulares e inquietas, com a habilidade de fazer perguntas difíceis e desprezar respostas fáceis. Com o crítico literário alemão Walter Benjamin, elas vieram a reconhecer a verdade perturbante de que “não há documento de cultura que não seja também um documento de barbárie”. E ainda ao mesmo tempo elas também conseguiram preservar a maravilha, a reverência e a admiração que as humanidades sempre sentiram em relação aos objetos de sua pesquisa. Elas desenvolveram o que pode se chamar de “amor difícil” [“tough love”] com as culturas das quais permanecem prisioneiras, provando que humanistas ainda sabem como valorizar aquilo que criticam ao invés de simplesmente desbancá-lo. E ao mesmo tempo elas têm sido capazes de refletir com honestidade dolorosa sobre suas próprias instituições e práticas, repreendendo sem hesitar suas falhas mas também defendendo apaixonadamente suas virtudes.

Como isso ajuda a responder a questão da utilidade das humanidades? Além das frequentemente citadas vantagens de habilidades verbais afiadas, conhecimento aprimorado de outras culturas e linguagens e habilidades analíticas aumentadas – todas as quais são explicitamente buscadas por empregadores em uma era de globalização neo-liberal – há algo mais intangível e mais poderoso em questão. Ao invés de nos servir refeições confortáveis e suaves para a mente, deixando-nos intocados por aquilo que vivenciamos, as humanidades podem nos compelir a refletir sobre as premissas que tomamos muito rapidamente por certas e os valores que aceitamos acriticamente. O auto-escrutínio impiedoso da última geração de disciplinas humanísticas, mencionada acima, é precisamente um exemplo dessa função. Embora certamente possamos concluir que há muito a conservar e transmitir para a posteridade sobre nossa herança cultural, pode haver também um benefício adicional em nível pessoal, que é capturado por uma carta escrita por Franz Kafka a um amigo: “Se o livro que estamos lendo não nos desperta, como com um soco em nossa cabeça, por que então nós o lemos? Para que ele nos faça felizes? Bom deus, nós seríamos felizes também se não tivéssemos qualquer livro, e tais livros para nos contentar poderíamos escrevê-los nós mesmos, se necessário… Um livro deve ser um machado de gelo para quebrar o mar congelado dentro de nós.” As humanidades, em suma, ajudam-nos a ler tais livros notáveis – e ouvir tais músicas, apreciar tal arte, etc. – com a atenção e o cuidado que eles requerem, e, ao fazerem isso, podem muito bem quebrar o gelo que se formou em nossas mentes e almas. As humanidades podem nem sempre nos ajudar a ter uma vida próspera, embora em muitos casos ela o faça. Mas o que é mais importante, elas podem nos servir poderosamente em nossa luta para ter uma vida significativa.

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Link para o texto original, em inglês.

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