Novo número de “Rethinking History”, com dossiê sobre 40 anos de Metahistory

No Editorial do novo número de “Rethinking History”, Alun Munslow faz uma pergunta que me parece inquietante: “How does theorising on the nature of history, have any kind of impact on actual practice?” (p. 436) Com alguma “liberdade poética”, mas não muita, gostaria de traduzir a pergunta nos seguintes termos: Como a reflexão teórica sobre a natureza da história pode ter qualquer impacto sobre a prática efetiva da historiografia?

Gostaria de deixar aqui duas provocações: (1) em que medida determinados caminhos da reflexão teórica precisam, necessariamente, ser incorporados pela “historiografia efetiva”? (2) Como a teoria da história se posiciona tensionada entre seus papéis descritivo-analíticos e propositivo-normativo – em outras palavras, como podemos pensar as perguntas “como se escreveu a história?” e “como se deve escrever a história?”?

Sumário:

Fico aguardando a resenha desse número pelo amigo Marcus Telles em seu blog, Prefigurations.

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  1. Marcus Telles

    Fala, João,
    Sobre as provocações, eu pensaria o seguinte. Discussões teóricas não terão um impacto mensurável sobre a prática, mas criam condições para uma maior reflexividade de maneiras imprevistas. Por exemplo, o Metahistory é construído em diálogo com uma tendência mais ampla de historicização do conhecimento (Kuhn, Foucault, etc.). Então, se quase ninguém leu o Metahistory e escreveu uma historiografia modernista, talvez alguns tenham tido mais cuidado em situar responsavelmente sua voz narrativa, em refletir sobre seus pressupostos éticos e estéticos, etc.
    No artigo do Peter Burke, ele faz bem em distinguir a contribuição negativa do White (enfraquecer os pressupostos positivistas) e a positiva (maior pra história da historiografia do que para algo como a história social, sem dúvidas). Mas acho que toda contribuição negativa já abre espaço para outras construções.
    Outra coisa que me ocorre, talvez numa linha mais próxima do LaCapra, é a possibilidade de praticar uma história intelectual a partir da qual se possa pensar a teoria (o Allan Megill fala nessa direção na penúltima Rethinking History). Então acho que essas abordagens híbridas podem ser interessantes para pensar a relação entre “teoria” e “prática”, até pra articulá-las, na verdade.
    E sempre dá pra apontar possibilidades de modo não-normativo: entre “como se escreveu a história?” e “como se deve escrever a história?”, tem espaço pra algo do tipo “como se poderia escrever a história?”

    O que acha?

    Abração

    • Ohara

      E aí, Marcus! Obrigado por reagir aos questionamentos.

      Quando pensei sobre a questão da contribuição, tinha em mente o seguinte: se o trabalho teórico se pretende retrospectivo (que eu gosto de chamar “descritivo-analítico”), não sei se ele necessariamente traz consigo uma proposição – mais ou menos normativa – a respeito do que seria interessante fazer a partir dali. Nesse sentido, quando penso em Metahistory, de White, ou em A Escrita da História, de Certeau, por exemplo, não vejo que exista necessariamente um chamado aos historiadores de se fazer a história de outra maneira. (É claro que se pode fazer outra leitura; aliás, justamente os seus trabalhos me apontaram num sentido que eu não tinha captado nas primeiras vezes que li Metahistory, de um White preocupado com a relação da historiografia com as outras instâncias da vida) Em todo caso, concordo plenamente com sua colocação sobre o valor de contribuições mesmo que negativas.

      Sobre a relação entre a “teoria” e a “prática”, acho que realmente ainda existe muito a ser explorado. De toda sorte, sempre fico pensando na aversão que alguns setores da historiografia “prática” sentem da reflexão teórica – como se ela não estivesse, mesmo que não explicitamente, condicionando o seu discurso. Claro que eu também jamais defenderia um tipo de atitude elitista como “nós, teóricos, estamos mais cientes dos segredos do discurso” – até porque a psicologia experimental tem mostrado com bastante sucesso nas últimas décadas que conhecer as limitações da razão torna ainda mais difícil evitar problemas com esses limites, ao invés de facilitar. O efeito é contrário: nos sentimos mais seguros das nossas decisões depois de estudar o quão falhos nós somos, e aí acabamos falhando ainda mais miseravelmente… Muito curioso.

      E, finalmente, concordo novamente com sua colocação. Minha dissertação sobre o conceito de história em Certeau tangencia justamente essa terceira pergunta – “como se poderia fazer?”. Um problema que me assombrou nos fins da redação foi o seguinte: qual será o valor de um longo inventário das maneiras possíveis de se fazer a historiografia? Porque, bem, mesmo constrangidos pelas regras do meio (que nos dizem o que NÃO podemos fazer), ainda existe um campo vastíssimo do que se pode fazer – e apenas uma mísera fatia desse campo é “efetivado”. Assim, será que “cartografar” esse espaço limitado traz algum ganho epistêmico relevante? (Bem, de minha parte, acho que sim, existe um ganho. Mas talvez não seja tão difícil imaginar as justificativas de alguém que não acredite nisso)

      Enfim. A resposta ficou longa, deu quase um novo post hehe Mais uma vez obrigado, Marcus! Abraço!

  2. Marcus Telles

    Mano, antes de te responder (afinal, preciso pensar, rs), um comentário: você já chegou a ver o “debate” entre o Roth e o Ankersmit? Quase um telecatch, hahaha. Abração!

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