O que é teoria da história? (Série Teoria da História, Parte 1)

Parece uma impertinência tentar responder uma pergunta tão genérica em uma postagem virtual, ou mesmo em uma série delas. Mas como bons historiadores sabemos que cada lugar de fala tem suas regras e suas particularidades, e uma das vantagens deste formato é a possibilidade de escrever mais ou menos livremente sobre mais ou menos qualquer assunto. Se isso não fosse o bastante, acho que não seria de todo maluco imaginar que existe uma enorme confusão a respeito dessa especialidade estranha que é a teoria da história. Então tiro vantagem de minha posição de “jovem pesquisador” para levar adiante esta impertinência.

Esta é a primeira postagem de uma série que começa aqui no blogue em torno da teoria da história: o que é? Para que serve? Quem pratica? É claro que são peças rápidas, mas espero que sejam de alguma forma instrutivas ou, pelo menos, provocadoras.

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Há pelo menos 2 maneiras de definir o que é teoria da história: uma mais pragmática, outra mais histórica. De maneira pragmática, ou seja, tendo em vista uma definição básica que nos permita trabalhar, podemos dizer que a teoria da história é a disciplina que tenta entender como um historiador consegue transformar documentos velhos e restos materiais em história. Os historiadores, suas práticas e seus valores são seu objeto. Há quem diga também, ampliando essa definição, que a teoria da história é a disciplina dedicada a entender as diferentes maneiras pelas quais o homem se relaciona com seu passado. Em suma, a teoria se debruça sobre o trabalho de construção de sentido que alguém realiza sobre “o passado”.

De um ponto de vista mais histórico, só podemos definir o que é teoria da história a partir de uma visada empírica sobre como diferentes tradições historiográficas definem o trabalho teórico. Por exemplo, na tradição francesa (que muito nos influenciou), o debate teórico é majoritariamente instrumental – discutem-se os conceitos que “historiadores de verdade” usam para dar sentido às suas narrativas históricas. Os casos mais famosos seriam a teoria das durações de Braudel, ou, mais recentemente, o conceito de representações sociais de Chartier. Podemos ver traços desse tipo de abordagem já no manual de Langlois e Seignobos, em sua rejeição às “filosofias da história”, bem como nos textos dos pais fundadores dos Annales, e mesmo na desconfiança de Le Goff com relação à relação entre história e filosofia.

Na tradição anglo-saxã floresceu a distinção entre filosofia substantiva, ou especulativa, e filosofia analítica, ou crítica, da história. O terreno da primeira seria o terreno dos filósofos clássicos da história, como Voltaire, Hegel e Marx, que buscavam desvendar o sentido e as leis do progresso histórico; a segunda se devotaria a esclarecer, com ajuda dos rigores da filosofia analítica, o funcionamento do texto histórico enquanto artefato produtor de conhecimento, abandonando as ambições metafísicas de falar sobre a história “em si”. Alguns dos debates mais famosos dessa tradição são aqueles em torno do covering law model, de Hempel e outros, em que se buscou entender como os historiadores poderiam desvendar relações de causalidade e, em última instância, leis gerais que explicariam cientificamente o passado; ou então os debates do narrativismo, em torno de nomes como Louis Mink, Arthur Danto, Hayden White, Frank Ankersmit & cia., em que o objetivo era investigar as características do texto histórico enquanto narrativa.

Fortemente influenciados pela tradição francesa, os estudos teóricos no Brasil permanecem marginais nos departamentos de História – ainda que sejamos um dos poucos lugares onde se pode ser, efetivamente, pesquisador na área. A teoria da história no Brasil era constituída, até recentemente, em torno do debate instrumental, e os conceitos debatidos teoricamente eram os conceitos norteadores da escrita de narrativas históricas “propriamente ditas”. Não é à toa que, entre os anos 80 e 90, a polêmica da vez seria a possibilidade de “usar” Thompson e Foucault em um mesmo trabalho de história… Alguns poucos autores se aventuravam nas águas turbulentas dos debates em torno do caráter narrativo da história, mas até pouco tempo essa era uma das especialidades mais marginais de nossa disciplina marginal.

Por tudo isso é difícil dar uma resposta definitiva para a questão, e qualquer ambição de resolver o problema definitivamente só trará, com certeza, frustração. De minha parte, fico satisfeito com a definição mais pragmática da teoria da história enquanto disciplina que investiga como funciona o trabalho complicado de transformar vestígios de um passado em uma história inteligível. Um leitor pouco crédulo teria todo o direito de dizer “Mas não é óbvio? Não é só pegar os documentos e fazer um texto?” Ora, tanto não o é, que abundam as imagens que os próprios historiadores usam para ilustrar sua concepção de seu trabalho: o ogro da lenda, de Marc Bloch; o detetive, de Carlo Ginzburg; o catador, de Michel de Certeau; apenas para citar alguns. Essas metáforas são uma das maneiras usadas pelos historiadores para compreender esse tipo específico de racionalidade que permite transformar documentos (textos, filmes, fotos, artefatos) em história. E é a teoria da história que explora as questões que envolvem essa racionalidade.

Sugestões de Leitura:

Agradecimento especial ao amigo Marcus Telles, pela leitura e comentários.

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