Os Historiadores e a Teoria, uma relação tensa (Série Teoria da História, Parte 2)

Tida como interface entre os campos da história e da filosofia, a teoria não goza de grandes paixões entre boa parte dos historiadores ocidentais. Para muitos, a teoria é como um “mal necessário”, e se deve envolver com ela o mínimo possível para realizar bem seu trabalho “de historiador”. Lucien Febvre já afirmava na década de 1930, que “[…] os historiadores não têm necessidades filosóficas muito grandes” – e ele não era o único. (Nosso colega, Lucas Pereira, publicou recentemente sua tese “Da Filosofia à História: os diálogos entre Foucault e os Annales”, em que faz um bom apanhado dessa conversa complicada). Perdi as contas de quantas vezes, na minha (ainda curta) trajetória acadêmica, ouvi professores e colegas dizendo que “teoria não serve pra nada”. Ninguém menos que Hayden White já afirmou que não adianta querer “pregar” o valor da teoria para os historiadores, porque “eles sabem o que estão fazendo” – e as recentes querelas em torno do seu par passado histórico/passado prático dão testemunho dessa relação desgastada. Há também certa surpresa por parte de alguns leitores estrangeiros em encontrar nas teses brasileiras o que acham um “excesso” de discussão teórica.

Ora, se a discussão teórica é meramente instrumental, como é comum no Brasil, me parece tolo dizer que a discussão teórica é “inútil”. Talvez ela não precise de um capítulo à parte, ou mesmo pertença apenas às considerações finais de um trabalho – mas sua ausência absoluta demonstra uma falta de rigor técnico que não me parece tolerável nas humanidades contemporâneas. Mas não me parece que é essa “teoria” que causa maior desconforto. A “teoria” que desagrada aos historiadores também não é necessariamente um retorno das “filosofias da história” do XIX – aliás, o sucesso de um Koselleck, um Hartog e um Gumbrecht dão testemunho de um renovado interesse pela reflexão substantiva em torno da história e de nossa relação com o tempo. A “teoria” que incomoda, ou assim me parece, é a que tenta entender como funciona o texto de história e as práticas de que ele resulta. A “teoria” que incomoda é, em outras palavras, aquela que os historiadores percebem (com maior ou menor justiça) como uma tentativa de vigilância vinda “de fora”.

Percebo muitas semelhanças entre a relação que os historiadores têm (nós temos) com a teoria e a relação que os “cientistas” têm com a filosofia da ciência. Em ambos os casos, a ideia principal é que aqueles que se dedicam ao trabalho teórico, mais reflexivo, sabem pouco sobre “a realidade” do “trabalho manual”, e que isso compromete sua capacidade de compreender e explicar os fenômenos a que se dedicam. Os teóricos tentam, segue a historieta, explicar fenômenos dos quais têm pouco conhecimento prático – de suas poltronas confortáveis avaliam os dedicados artesãos do conhecimento. No cenário anglo-saxão, em que a teoria da história é assunto pouco tratado nos departamentos de história (relegado aos domínios marginais da literatura comparada, da crítica literária, ou, “pior”, dos estudos culturais), a acusação me parece mais justa do que em terras brasileiras, em que os filósofos de ofício pouco se interessam pela área, e são indivíduos formados pelos e atuantes nos próprios departamentos de história que se encarregam da labuta teórica.

Não sei dizer ainda se compartilho do pessimismo de Hayden White, para quem existe pouca esperança de encontrar um “chão comum” entre a teoria da história e os historiadores – ver seu breve artigo The Practical Past (link abaixo). Retomando o paralelo que fiz com a filosofia da ciência, os argumentos de White parecem consistentes: boa parte dos cientistas pouco se importa com o que filósofos, sociólogos e historiadores da ciência têm a dizer sobre seu ofício. Será que estamos fadados ao mesmo destino? É claro que a teoria instrumental não deve desaparecer tão cedo, e o interesse renovado nos problemas da temporalidade deve fazer subsistir por algum tempo ainda certas especulações substantivas sobre o tempo histórico. No que se refere à análise dos pressupostos e do funcionamento da historiografia, no entanto… Talvez por isso a história da historiografia seja um gênero mais palatável (ainda que não seja adorado) ao nosso gosto de historiadores – afinal, trata-se de aplicar, como diz Certeau, um “gesto próprio” de historiador, de ligar uma prática a um lugar – em relação ao debate abstrato, conceitual da teoria.

Sugestões de Leitura:

Na próxima semana chega a parte 3: Para que serve a teoria da história?

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  1. Marcus Telles

    Tá massa a série, meu velho! Pensando junto aqui:

    Eu acho muito sintomático como essas disputas entre campos sempre são percebidas pelos participantes como “defesa”, “ataque”, “disputa”, “batalha”, etc. (e o melhor: MURDER! hahahahahah!)

    Gosto de ler a distinção entre “prático” e “histórico” como uma certa atitude que por sua vez, gera um certo passado (na medida em que, como decorrência da atitude, o descreve/apresenta de uma certa forma).

    E o passado “histórico”, especificamente, dá pra ler tanto como uma forma de má-fé (recusa em reconhecer que, afinal de contas, toda apresentação tem caráter prático, assim como a historiografia “histórica” teve no século XIX, justificando a existência dos estados nacionais) quanto como uma certa atitude focada mais em fornecer dados e/ou explicações do que significados e voltada mais pros pares do que pro público.

    Nesse segundo sentido de “histórico”, faz sentido pensar que as duas atitudes são mais complementares do que alternativas. Não que vão se combinar e formar uma única perspectiva mais completa, mas por que vão produzir efeitos que o outro tipo não produz. A incomensurabilidade acaba sendo a própria riqueza.

    E aí, pensando assim, dá pra falar em uma forma “prática” e uma forma “histórica” de relacionar passado prático e passado histórico. A relação “prática” entre as duas, que interessa aqui, seria a que valoriza essa riqueza pelas implicações sociais da combinação (e a “histórica” veria os passados práticos como meras representações artísticas). É bom que algumas apresentações foquem mais em dados e outros em significações, ou que algumas foquem mais em explicar, estabelecer regularidades, coisas assim.

    • Ohara

      Pois é, Marcus! Também acho muito interessante como essa imagem bélica atravessa esse tipo de atrito – isso sem contar nas metáforas territoriais (fronteiras, bordas, autorização de entrada). Como te falei por mensagem, acho que a gente vive hoje uma tensão bem forte, talvez por conta do contexto político, em torno desses entendimentos entre histórico e prático. Principalmente na historiografia brasileira, vejo que é bem difícil de justificar um projeto de pesquisa do ponto de vista meramente histórico – a gente internalizou bastante aquela ideia de história-problema, e, por mais que ainda exista uma certa hierarquia entre “temas mais ou menos relevantes”, faz tempo que não vejo uma pesquisa que é unanimemente considerada “inútil”. Food for thought.

  2. R.A.L.

    Obrigado por compartilhar conosco essas “histórias”. Queria sugerir que você, em algum momento, abrisse espaço para discutir sobre o que vocês, historiadores (eu sou jurista, mas faço, com muito gosto, doutorado em Educação na linha “História da Educação”) acham de profissionais de outros campos estarem “fazendo história”. A questão da teoria para nós é um desafio à parte, mas penso que sem ela eu, particularmente, não conseguiria dar um paço na história da educação…

    • Ohara

      Olá! Obrigado pelo comentário e pela sugestão! Esse é sim um tema que está no radar, e deve aparecer por aqui, sim! Existe muito debate em torno, principalmente, dos livros escritos por jornalistas – isso sem contar as histórias de disciplinas (história da arte, história da filosofia, história das ciências, ou mesmo história do direito), que geralmente também são terreno tenso entre historiadores, filósofos, sociólogos, etc., e os profissionais que estão “sendo historiados”.

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