A História dos Historiadores e as Outras Histórias

O leitor R.A.L. chamou a atenção, em um comentário anterior, para o tópico dos livros de história escritos por não-historiadores. Vou tentar dar meus pitacos, mas não pretendo afirmar que minhas posições sejam representativas da maioria dos historiadores. Penso que o problema pode se desdobrar infinitamente, mas separei três eixos que considero mais interessantes: as histórias dos historiadores e dos “outros”, os usos do passado e o problema do método.

Há uma “história dos historiadores”?

Há muitos campos da história que são dominados, no Brasil e lá fora, por pesquisadores de outras disciplinas. A história da ciência, por exemplo, conta com grande participação de pesquisadores das sub-disciplinas estudadas (físicos, médicos, biólogos). Alguns casos, como a história da filosofia, a história da arte e a história da literatura, são quase que completamente dominados por praticantes dessas disciplinas (filósofos, críticos de arte e críticos literários, respectivamente), e os “historiadores de ofício” frequentemente ignoraram esses campos em si, ou, pelo menos, a vasta literatura produzida nesses campos. Francisco Iglésias (um importante historiador brasileiro, que se ocupou longamente com a avaliação da área de História) afirmou, nos idos anos de 1980, que as histórias do Direito produzidas por juristas “valem pouco ou até quase nada como História”. Outro exemplo ilustrativo desse descompasso entre os departamentos de história e essas modalidades liminares de história é a obra de Michel Foucault: muito da incompreensão de algumas de suas obras, como As Palavras e as Coisas, ou A Arqueologia do Saber, se deve a que Foucault dialogou majoritariamente com uma tradição de história da ciência que se desenvolveu largamente fora dos departamentos de história – aquela de Bachelard e Canguilhem.

Mais recentemente, no entanto, a comoção veio das áreas mais canônicas da história, quando jornalistas demonstraram interesse em publicar obras sobre “a história do Brasil”. Mesmo descontando aqueles textos de baixíssimo nível de pesquisa e de apresentação, como os Guias Politicamente Incorretos, ainda resta um grande filão editorial em torno de sínteses históricas, ou de “grandes acontecimentos” (como a chegada da Corte Portuguesa e o processo de Independência) que autores e editoras souberam explorar comercialmente e alavancaram grande número de vendas. Para além do esperado lamento por parte de alguns historiadores sobre essa “invasão” inapropriada por parte de pessoas “sem noção de pesquisa histórica”, acho mais significativa a resposta na forma da publicação renovada de livros de divulgação escritos, aí sim, por historiadores – Jaime Pinsky escreveu seu Por que gostamos de história?, Luciano Figueiredo organizou a História do Brasil para Ocupados, e Lilia Schwarcz e Heloisa Starling publicaram Brasil: uma Biografia – todos com boa vendagem nas livrarias.

Tendo tudo isso em vista, parece-me que chegamos a dois descompassos diferentes: um referente aos campos liminares (por ex., as histórias disciplinares) e outro referente às concepções de história dos “historiadores de ofício” e os “leigos”. Quanto ao primeiro, minha percepção pessoal (e, por isso, de pouco ou nenhum valor “científico”) é de que a maioria dos “historiadores de ofício”, pelo menos no Brasil, nunca se interessou muito em escrever as histórias que não fossem as histórias do político, do social ou do econômico, em seus sentidos mais amplos. Mesmo com nossos grandes historiadores da cultura, o problema de fundo é sempre “a sociedade brasileira”, de modo que a história cultural seria sempre uma nova maneira de abordar e entender a dinâmica social da população brasileira. Nesse sentido, as histórias da arte, da filosofia ou da ciência seriam tarefas de “menor importância”, uma vez que são frequentemente “ensimesmadas”, ilhadas do que seria o “contexto maior” – novamente, a “sociedade brasileira”.

Quanto ao segundo descompasso, enquanto a historiografia produzida pelos pesquisadores mudou muito, especializou-se em torno de alguns temas e construiu ferramentas muito sofisticadas para analisar fenômenos históricos (voltaremos a esse problema na parte 3, sobre “o método”), para parte significativa da população, os atrativos da história permanecem pautados pelas chaves da curiosidade, dos eventos “picantes”, do olhar de curto alcance (interesse saciado pelos jornalistas, e muito semelhante ao tipo de interesse fomentado na grande mídia), ou então pelas grandes explicações históricas das nossas mazelas (vemos, recentemente, essa ideia estranha de que “a corrupção começou com Pedro Álvares Cabral”, como se se tratasse de um fenômeno único atravessando os séculos). A “história dos historiadores” raramente se dá a saciar esse tipo de curiosidade, e acho legítimo perguntar se ela o deveria fazer – sob o risco de ser acusado de academicismo, minha resposta pessoal é de que não.

Em tempo, é justo lembrar que o descompasso entre a “história dos historiadores” e a curiosidade do público não é, em si, ruim, e tampouco é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado dos reenactments é relativamente enorme, e mobiliza muitas pessoas desejosas de ter um contato “mais direto” com o passado. Os filmes de temáticas históricas pululam mundo afora. A “história dos historiadores” não pode oferecer nada disso sem repensar completamente seus fundamentos mais básicos. Historiadores sempre poderão oferecer seus serviços como consultores desse tipo de produto cultural, mas esperar que ocupem posições de comando é tolice – e de uma grande arrogância por parte dos pesquisadores. Não há saída mágica; se o passado não é propriedade de ninguém, a tarefa do historiador permanece ao mesmo tempo humilde e desafiadora: produzir conhecimento sobre o passado que desestabilize nossas certezas e mostre que o mundo (e a história) é maior que nosso próprio umbigo, com ou sem apelo comercial.

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Um Comentário

  1. Marcus Telles

    Eu gostaria muito mesmo de ver mais historiadores ocupando espaços públicos, produzindo divulgação científica, fazendo documentários e vídeos pro Youtube, se juntando a artistas, criando espaço pra conversas e debates que ofereçam alternativas pra quem se interessa por história mas não tem interlocutores fora das bizarrices das redes sociais, etc.

    Por exemplo, nas discussões sobre o golpe desde o ano passado, vi muitos de nós apelando a uma certa autoridade em relação ao passado, mas muito muito poucos efetivamente produzindo algo que efetivamente mobilizasse o conhecimento profissional de uma forma que mais pessoas pudessem entender.

    Não adianta a gente não oferecer nada, não sermos criativos, não irmos onde as pessoas estão, exigirmos reconhecimento de nossa autoridade disciplinar, e depois ficarmos putos quando jornalistas escrevem livros de história. Enfim, não falo como crítica, mas pra dizer que tem muitas possibilidades em aberto. Tô de pleno acordo contigo que o passado não é propriedade de ninguém.

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