Sobre Usos do Passado

Continuando a tratar do fim do monopólio dos historiadores sobre o passado, vamos pensar um pouco sobre o problema dos vários usos do passado.

Usos do Passado

O passado não é propriedade de ninguém. Pode-se dizer diferentes coisas sobre ele com diferentes objetivos e por diferentes meios. Por muito tempo, foi privilégio do historiador produzir as narrativas legítimas que comporiam “a história da nação”, mas a situação mudou, e, hoje, vários grupos reivindicam o direito de contar sua própria história, enquanto o mercado editorial aproveita a conjunção da curiosidade pela história que atravessa nossa sociedade e o poder dos temas polêmicos com títulos sensacionalistas para publicar e vender livros dos mais variados níveis de qualidade. Uma vez que essas narrativas não necessariamente seguem as normas e os critérios da historiografia profissionalizada, muitos historiadores se preocupam com o problema da verdade e da adequação dessas narrativas “ao passado tal qual ele aconteceu”. Outros, ainda, conscientes de que toda história é necessariamente seletiva, incompleta, orientada por estruturas pré-narrativas que dão a todo relato seus limites, acham preocupante que certos pontos de vista sejam considerados legítimos e dignos de serem considerados na arena pública do debate (como o ponto de vista dos militares e dos torturadores durante o período da Ditadura Militar, ou, de maneira mais geral, o ponto de vista dos algozes e perpetradores de massacres).

Como já demonstraram Hayden White, Frank Ankersmit e vários outros envolvidos no debate narrativista, o texto de história não é apenas um catálogo de fatos em ordem cronológica. Essas “frases descritivas”, do tipo “Zé da Silva nasceu no dia 10 de Janeiro de 1901”, são verificáveis, e, portanto, passíveis de serem refutadas com mais “facilidade”. O problema surge quando, inevitavelmente, damos um sentido a um conjunto de fatos isolados. É muito difícil, para não dizer impossível, escolher um único sentido possível como o correto, infalível e além de qualquer dúvida – o que, mais uma vez, não quer dizer que se possa dizer qualquer coisa. Michel de Certeau nos lembra que o conhecimento histórico será sempre o conhecimento do provável, mas isso não ilumina muita coisa, porque a probabilidade ainda é pouco frente as ambições dos historiadores. Carlo Ginzburg rejeita as teses de White com base em que elas poderiam ser usadas para fins horrendos, mas esse tipo de argumento é muito ruim, do ponto de vista lógico, e só tem apelo porque mobiliza paixões éticas e políticas.

Ainda não aprendemos a viver nesse mundo novo em que não cabe mais exclusivamente a um grupo de indivíduos avaliar as narrativas que compõem A História. Países como Japão, Rússia e Turquia vem avançando lenta mas decididamente sobre os livros de história que circulam em suas escolas, apagando sistematicamente quaisquer narrativas que possam ferir um certo senso de orgulho patriótico. No Brasil, a conjuntura política recente favoreceu um tipo de querela em torno da história da Ditadura Militar que frequentemente coloca toda a instituição da pesquisa histórica em cheque sob acusações de “distorções políticas” e “revanchismo”. Movimentos políticos avançam suas pautas de que apenas suas experiências e suas vivências próprias podem fundamentar as histórias de seus grupos, e que os “forasteiros” não são capazes de narrar adequadamente esses passados. No meio disso tudo, há quem acredite, de maneira otimista, na capacidade crítica do debate público de ideias, em que a voz dos especialistas (os historiadores) é apenas mais uma entre tantas. Outros apelam para que os historiadores “se atualizem”, transformem seu trabalho, incorporando novas maneiras de pesquisar e de comunicar suas pesquisas, em um último esforço de tornar a história dos historiadores relevante para a sociedade. Tempos de experimentação.

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