Fórum de Teoria e História da Historiografia, Recife, Dezembro de 2018

Durante a primeira semana de Dezembro, além da coleta de materiais para o banco de dados, participei da edição 2018 do Fórum de Teoria e História da Historiografia, organizado pelos colegas Pablo Spindola e Wagner Geminiano dos Santos. Participei como proponente de um texto para discussão, e tive o privilégio de contar com dois comentadores bastante rigorosos e generosos – Pablo, já citado, e Evandro Santos, professor de teoria na UFRN. Na ocasião, propus para debate o texto “Confiança e Autoridade Epistêmica: sobre as condições de possibilidade da historiografia moderna“.

O texto é, na realidade, uma espécie de leitura comentada de dois textos de John Hardwig sobre o papel fundamental da confiança na produção contemporânea de conhecimento. E sendo Hardwig um filósofo da tradição analítica, foi bastante interessante ouvir as observações, objeções e sugestões dos comentadores. Isso porque o diálogo com a filosofia analítica na teoria da história (aqui no Brasil) é extremamente limitado e enviesado, e há muitas divergências conceituais profundas, que precisam ser melhor delimitadas. Pablo e Evandro foram excelentes em suas falas, e generosos o suficiente para me auxiliar na tarefa de definir eixos importantes para estabelecer essa ponte com a filosofia analítica. As professoras Maria da Glória de Oliveira e Rebeca Gontijo também participaram do debate e fizeram observações muito pertinentes. (Uma menção também ao professor Temístocles Cezar, que durante o evento em Guarulhos, que já mencionei anteriormente, também me fez sugestões valiosas).

O evento ainda contou com outra sessão de texto comentado (do colega Diego Fernandes, doutorando na UFRGS) e algumas mesas excelentes em torno do tema central do evento, que era “Desafios Contemporâneos à Autoridade Pública do Historiador”. No geral, foram três dias de debates muito profícuos e muito aprendizado.

Pós-Escrito sobre a Área de Teoria no Brasil

Já conversei com vários colegas (incluindo Pablo e Valdei, que acho que compartilham de algumas dessas opiniões) sobre a percepção que tenho de a área de Teoria da História no Brasil (se é que podemos dizer que ela existe de maneira tão blocada como as divisões do CNPq fazem crer) se caracteriza por alguns traços particulares: (1) é dominada por historiadores, na medida em que boa parte dos filósofos por aqui não tem grande interesse na filosofia da história; (2) está em trânsito entre uma agenda mais antiga, que chamo de teoria-metodologia, em que os temas de discussão são preferencialmente ligados aos conceitos operacionais do trabalho (por ex. representação social, de Chartier, experiência de classe, no Thompson, etc), para uma mais nova, mais efetivamente ligada à reflexão abstrata sobre as condições de funcionamento do discurso histórico – e aqui a oposição antigo/novo não pretende carregar um sentido de evolução, mas simplesmente de deslocamento cronológico e propriamente social-epistêmico; e, finalmente, (3) se contenta com a exegese de autores (majoritariamente europeus) e/ou o estabelecimento de ligações entre eles, sem uma preocupação mais profunda com problemas teóricos/filosóficos propriamente ditos. Tenho a impressão de que essa situação se deve em muito à constituição do campo no Brasil, coisa que tenho explorado em um artigo em desenvolvimento sobre o surgimento das disciplinas de “Introdução aos Estudos Históricos” nos cursos de História em meados do século XX.

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