Categoria: Série Teoria da História

Para que serve teoria da história? (Série Teoria da História, Parte 3)

Qual o papel da teoria na famosa “oficina” do historiador? Em que se beneficia o historiador ao fazer sua reflexão teórica? Por muito tempo o topos tão bem expresso por Pierre Chaunu, da tentação epistemológica, exerceu forte influência na historiografia profissional, e, talvez por isso, a questão da utilidade da teoria para a prática historiográfica seja ainda bastante nebulosa.

Em seu aspecto mais instrumental, a teoria da história é o que permite ao historiador esclarecer os conceitos que usa para dar sentido ao passado. Essa tarefa é importante não só por questão de rigor, mas também porque a história (enquanto conhecimento) lida com vocabulário corrente para explicar os fenômenos que estuda. Diferentemente da matemática, da física ou da química, que desenvolveram linguagens específicas, a história (como boa parte das outras ciências humanas e sociais) lida com uma estrutura explicativa que é muito próxima da linguagem corriqueira, do dia-a-dia, e, por isso, é preciso um esforço para delimitar o significado e o sentido dos seus conceitos. Alguns exemplos: a palavra “experiência” designa conceitos muito diferentes em E. P. Thompson ou em Foucault; “representação” se refere a fenômenos muito diferentes nos trabalhos de GInzburg, de Chartier ou de Ankersmit; o “contexto” da escola de Cambridge tem sentido muito diferente do sentido corrente da palavra. Assim, nesse primeiro aspecto, a teoria da história é a disciplina que permite ao historiador delimitar aquilo que estuda.

Há outros aspectos da teoria da história, no entanto, que são menos diretamente instrumentalizados no trabalho dos historiadores. Isso porque certas reflexões teóricas não lidam necessariamente com os conceitos usados para dar sentido ao passado, mas sim com o próprio trabalho de reunir evidências e produzir uma representação do passado com ambições de verdade e intenções cognitivas. Outras, ainda, investigam fenômenos que são condição de possibilidade para a empreitada dos historiadores, como o tempo. Nesses casos é mais difícil de perceber que tipo de utilidade a teoria da história tem para os historiadores em seu trabalho cotidiano.

Sempre se pode argumentar que a análise abstrata da racionalidade peculiar que permite ao historiador reunir materiais dispersos em uma narrativa com sentido bem definido não tem qualquer relação com a produção de um texto de história, e que, por isso, esse tipo de conhecimento não teria relação com a qualidade da narrativa histórica resultante do trabalho. Mas, então, só tem valor a reflexão teórica instrumental? Acho difícil sustentar tal visão.

Em que pese não terem ação direta e visível sobre a narrativa do historiador, os estudos sobre o caráter narrativo do texto histórico, o problema da representação histórica, as diversas relações possíveis com o passado – todos centrais para a teoria da história – têm o mérito de esclarecer os entornos do trabalho do historiador. Em outras palavras, a teoria da história é capaz de mostrar não apenas como funciona o texto histórico “em si”, mas também como esse texto funciona em relação à sua exterioridade – seus autores e leitores, as instituições em que circulam, as práticas e os discursos que sustentam. Se nós, historiadores, continuamos achando que isso “não presta para nada”… bem, o problema é nosso.

Recomendação de Leitura:

Os Historiadores e a Teoria, uma relação tensa (Série Teoria da História, Parte 2)

Tida como interface entre os campos da história e da filosofia, a teoria não goza de grandes paixões entre boa parte dos historiadores ocidentais. Para muitos, a teoria é como um “mal necessário”, e se deve envolver com ela o mínimo possível para realizar bem seu trabalho “de historiador”. Lucien Febvre já afirmava na década de 1930, que “[…] os historiadores não têm necessidades filosóficas muito grandes” – e ele não era o único. (Nosso colega, Lucas Pereira, publicou recentemente sua tese “Da Filosofia à História: os diálogos entre Foucault e os Annales”, em que faz um bom apanhado dessa conversa complicada). Perdi as contas de quantas vezes, na minha (ainda curta) trajetória acadêmica, ouvi professores e colegas dizendo que “teoria não serve pra nada”. Ninguém menos que Hayden White já afirmou que não adianta querer “pregar” o valor da teoria para os historiadores, porque “eles sabem o que estão fazendo” – e as recentes querelas em torno do seu par passado histórico/passado prático dão testemunho dessa relação desgastada. Há também certa surpresa por parte de alguns leitores estrangeiros em encontrar nas teses brasileiras o que acham um “excesso” de discussão teórica.

Ora, se a discussão teórica é meramente instrumental, como é comum no Brasil, me parece tolo dizer que a discussão teórica é “inútil”. Talvez ela não precise de um capítulo à parte, ou mesmo pertença apenas às considerações finais de um trabalho – mas sua ausência absoluta demonstra uma falta de rigor técnico que não me parece tolerável nas humanidades contemporâneas. Mas não me parece que é essa “teoria” que causa maior desconforto. A “teoria” que desagrada aos historiadores também não é necessariamente um retorno das “filosofias da história” do XIX – aliás, o sucesso de um Koselleck, um Hartog e um Gumbrecht dão testemunho de um renovado interesse pela reflexão substantiva em torno da história e de nossa relação com o tempo. A “teoria” que incomoda, ou assim me parece, é a que tenta entender como funciona o texto de história e as práticas de que ele resulta. A “teoria” que incomoda é, em outras palavras, aquela que os historiadores percebem (com maior ou menor justiça) como uma tentativa de vigilância vinda “de fora”.

Percebo muitas semelhanças entre a relação que os historiadores têm (nós temos) com a teoria e a relação que os “cientistas” têm com a filosofia da ciência. Em ambos os casos, a ideia principal é que aqueles que se dedicam ao trabalho teórico, mais reflexivo, sabem pouco sobre “a realidade” do “trabalho manual”, e que isso compromete sua capacidade de compreender e explicar os fenômenos a que se dedicam. Os teóricos tentam, segue a historieta, explicar fenômenos dos quais têm pouco conhecimento prático – de suas poltronas confortáveis avaliam os dedicados artesãos do conhecimento. No cenário anglo-saxão, em que a teoria da história é assunto pouco tratado nos departamentos de história (relegado aos domínios marginais da literatura comparada, da crítica literária, ou, “pior”, dos estudos culturais), a acusação me parece mais justa do que em terras brasileiras, em que os filósofos de ofício pouco se interessam pela área, e são indivíduos formados pelos e atuantes nos próprios departamentos de história que se encarregam da labuta teórica.

Não sei dizer ainda se compartilho do pessimismo de Hayden White, para quem existe pouca esperança de encontrar um “chão comum” entre a teoria da história e os historiadores – ver seu breve artigo The Practical Past (link abaixo). Retomando o paralelo que fiz com a filosofia da ciência, os argumentos de White parecem consistentes: boa parte dos cientistas pouco se importa com o que filósofos, sociólogos e historiadores da ciência têm a dizer sobre seu ofício. Será que estamos fadados ao mesmo destino? É claro que a teoria instrumental não deve desaparecer tão cedo, e o interesse renovado nos problemas da temporalidade deve fazer subsistir por algum tempo ainda certas especulações substantivas sobre o tempo histórico. No que se refere à análise dos pressupostos e do funcionamento da historiografia, no entanto… Talvez por isso a história da historiografia seja um gênero mais palatável (ainda que não seja adorado) ao nosso gosto de historiadores – afinal, trata-se de aplicar, como diz Certeau, um “gesto próprio” de historiador, de ligar uma prática a um lugar – em relação ao debate abstrato, conceitual da teoria.

Sugestões de Leitura:

Na próxima semana chega a parte 3: Para que serve a teoria da história?

O que é teoria da história? (Série Teoria da História, Parte 1)

Parece uma impertinência tentar responder uma pergunta tão genérica em uma postagem virtual, ou mesmo em uma série delas. Mas como bons historiadores sabemos que cada lugar de fala tem suas regras e suas particularidades, e uma das vantagens deste formato é a possibilidade de escrever mais ou menos livremente sobre mais ou menos qualquer assunto. Se isso não fosse o bastante, acho que não seria de todo maluco imaginar que existe uma enorme confusão a respeito dessa especialidade estranha que é a teoria da história. Então tiro vantagem de minha posição de “jovem pesquisador” para levar adiante esta impertinência.

Esta é a primeira postagem de uma série que começa aqui no blogue em torno da teoria da história: o que é? Para que serve? Quem pratica? É claro que são peças rápidas, mas espero que sejam de alguma forma instrutivas ou, pelo menos, provocadoras.

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Há pelo menos 2 maneiras de definir o que é teoria da história: uma mais pragmática, outra mais histórica. De maneira pragmática, ou seja, tendo em vista uma definição básica que nos permita trabalhar, podemos dizer que a teoria da história é a disciplina que tenta entender como um historiador consegue transformar documentos velhos e restos materiais em história. Os historiadores, suas práticas e seus valores são seu objeto. Há quem diga também, ampliando essa definição, que a teoria da história é a disciplina dedicada a entender as diferentes maneiras pelas quais o homem se relaciona com seu passado. Em suma, a teoria se debruça sobre o trabalho de construção de sentido que alguém realiza sobre “o passado”.

De um ponto de vista mais histórico, só podemos definir o que é teoria da história a partir de uma visada empírica sobre como diferentes tradições historiográficas definem o trabalho teórico. Por exemplo, na tradição francesa (que muito nos influenciou), o debate teórico é majoritariamente instrumental – discutem-se os conceitos que “historiadores de verdade” usam para dar sentido às suas narrativas históricas. Os casos mais famosos seriam a teoria das durações de Braudel, ou, mais recentemente, o conceito de representações sociais de Chartier. Podemos ver traços desse tipo de abordagem já no manual de Langlois e Seignobos, em sua rejeição às “filosofias da história”, bem como nos textos dos pais fundadores dos Annales, e mesmo na desconfiança de Le Goff com relação à relação entre história e filosofia.

Na tradição anglo-saxã floresceu a distinção entre filosofia substantiva, ou especulativa, e filosofia analítica, ou crítica, da história. O terreno da primeira seria o terreno dos filósofos clássicos da história, como Voltaire, Hegel e Marx, que buscavam desvendar o sentido e as leis do progresso histórico; a segunda se devotaria a esclarecer, com ajuda dos rigores da filosofia analítica, o funcionamento do texto histórico enquanto artefato produtor de conhecimento, abandonando as ambições metafísicas de falar sobre a história “em si”. Alguns dos debates mais famosos dessa tradição são aqueles em torno do covering law model, de Hempel e outros, em que se buscou entender como os historiadores poderiam desvendar relações de causalidade e, em última instância, leis gerais que explicariam cientificamente o passado; ou então os debates do narrativismo, em torno de nomes como Louis Mink, Arthur Danto, Hayden White, Frank Ankersmit & cia., em que o objetivo era investigar as características do texto histórico enquanto narrativa.

Fortemente influenciados pela tradição francesa, os estudos teóricos no Brasil permanecem marginais nos departamentos de História – ainda que sejamos um dos poucos lugares onde se pode ser, efetivamente, pesquisador na área. A teoria da história no Brasil era constituída, até recentemente, em torno do debate instrumental, e os conceitos debatidos teoricamente eram os conceitos norteadores da escrita de narrativas históricas “propriamente ditas”. Não é à toa que, entre os anos 80 e 90, a polêmica da vez seria a possibilidade de “usar” Thompson e Foucault em um mesmo trabalho de história… Alguns poucos autores se aventuravam nas águas turbulentas dos debates em torno do caráter narrativo da história, mas até pouco tempo essa era uma das especialidades mais marginais de nossa disciplina marginal.

Por tudo isso é difícil dar uma resposta definitiva para a questão, e qualquer ambição de resolver o problema definitivamente só trará, com certeza, frustração. De minha parte, fico satisfeito com a definição mais pragmática da teoria da história enquanto disciplina que investiga como funciona o trabalho complicado de transformar vestígios de um passado em uma história inteligível. Um leitor pouco crédulo teria todo o direito de dizer “Mas não é óbvio? Não é só pegar os documentos e fazer um texto?” Ora, tanto não o é, que abundam as imagens que os próprios historiadores usam para ilustrar sua concepção de seu trabalho: o ogro da lenda, de Marc Bloch; o detetive, de Carlo Ginzburg; o catador, de Michel de Certeau; apenas para citar alguns. Essas metáforas são uma das maneiras usadas pelos historiadores para compreender esse tipo específico de racionalidade que permite transformar documentos (textos, filmes, fotos, artefatos) em história. E é a teoria da história que explora as questões que envolvem essa racionalidade.

Sugestões de Leitura:

Agradecimento especial ao amigo Marcus Telles, pela leitura e comentários.