A História dos Historiadores e as Outras Histórias

O leitor R.A.L. chamou a atenção, em um comentário anterior, para o tópico dos livros de história escritos por não-historiadores. Vou tentar dar meus pitacos, mas não pretendo afirmar que minhas posições sejam representativas da maioria dos historiadores. Penso que o problema pode se desdobrar infinitamente, mas separei três eixos que considero mais interessantes: as histórias dos historiadores e dos “outros”, os usos do passado e o problema do método.

Há uma “história dos historiadores”?

Há muitos campos da história que são dominados, no Brasil e lá fora, por pesquisadores de outras disciplinas. A história da ciência, por exemplo, conta com grande participação de pesquisadores das sub-disciplinas estudadas (físicos, médicos, biólogos). Alguns casos, como a história da filosofia, a história da arte e a história da literatura, são quase que completamente dominados por praticantes dessas disciplinas (filósofos, críticos de arte e críticos literários, respectivamente), e os “historiadores de ofício” frequentemente ignoraram esses campos em si, ou, pelo menos, a vasta literatura produzida nesses campos. Francisco Iglésias (um importante historiador brasileiro, que se ocupou longamente com a avaliação da área de História) afirmou, nos idos anos de 1980, que as histórias do Direito produzidas por juristas “valem pouco ou até quase nada como História”. Outro exemplo ilustrativo desse descompasso entre os departamentos de história e essas modalidades liminares de história é a obra de Michel Foucault: muito da incompreensão de algumas de suas obras, como As Palavras e as Coisas, ou A Arqueologia do Saber, se deve a que Foucault dialogou majoritariamente com uma tradição de história da ciência que se desenvolveu largamente fora dos departamentos de história – aquela de Bachelard e Canguilhem.

Mais recentemente, no entanto, a comoção veio das áreas mais canônicas da história, quando jornalistas demonstraram interesse em publicar obras sobre “a história do Brasil”. Mesmo descontando aqueles textos de baixíssimo nível de pesquisa e de apresentação, como os Guias Politicamente Incorretos, ainda resta um grande filão editorial em torno de sínteses históricas, ou de “grandes acontecimentos” (como a chegada da Corte Portuguesa e o processo de Independência) que autores e editoras souberam explorar comercialmente e alavancaram grande número de vendas. Para além do esperado lamento por parte de alguns historiadores sobre essa “invasão” inapropriada por parte de pessoas “sem noção de pesquisa histórica”, acho mais significativa a resposta na forma da publicação renovada de livros de divulgação escritos, aí sim, por historiadores – Jaime Pinsky escreveu seu Por que gostamos de história?, Luciano Figueiredo organizou a História do Brasil para Ocupados, e Lilia Schwarcz e Heloisa Starling publicaram Brasil: uma Biografia – todos com boa vendagem nas livrarias.

Tendo tudo isso em vista, parece-me que chegamos a dois descompassos diferentes: um referente aos campos liminares (por ex., as histórias disciplinares) e outro referente às concepções de história dos “historiadores de ofício” e os “leigos”. Quanto ao primeiro, minha percepção pessoal (e, por isso, de pouco ou nenhum valor “científico”) é de que a maioria dos “historiadores de ofício”, pelo menos no Brasil, nunca se interessou muito em escrever as histórias que não fossem as histórias do político, do social ou do econômico, em seus sentidos mais amplos. Mesmo com nossos grandes historiadores da cultura, o problema de fundo é sempre “a sociedade brasileira”, de modo que a história cultural seria sempre uma nova maneira de abordar e entender a dinâmica social da população brasileira. Nesse sentido, as histórias da arte, da filosofia ou da ciência seriam tarefas de “menor importância”, uma vez que são frequentemente “ensimesmadas”, ilhadas do que seria o “contexto maior” – novamente, a “sociedade brasileira”.

Quanto ao segundo descompasso, enquanto a historiografia produzida pelos pesquisadores mudou muito, especializou-se em torno de alguns temas e construiu ferramentas muito sofisticadas para analisar fenômenos históricos (voltaremos a esse problema na parte 3, sobre “o método”), para parte significativa da população, os atrativos da história permanecem pautados pelas chaves da curiosidade, dos eventos “picantes”, do olhar de curto alcance (interesse saciado pelos jornalistas, e muito semelhante ao tipo de interesse fomentado na grande mídia), ou então pelas grandes explicações históricas das nossas mazelas (vemos, recentemente, essa ideia estranha de que “a corrupção começou com Pedro Álvares Cabral”, como se se tratasse de um fenômeno único atravessando os séculos). A “história dos historiadores” raramente se dá a saciar esse tipo de curiosidade, e acho legítimo perguntar se ela o deveria fazer – sob o risco de ser acusado de academicismo, minha resposta pessoal é de que não.

Em tempo, é justo lembrar que o descompasso entre a “história dos historiadores” e a curiosidade do público não é, em si, ruim, e tampouco é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado dos reenactments é relativamente enorme, e mobiliza muitas pessoas desejosas de ter um contato “mais direto” com o passado. Os filmes de temáticas históricas pululam mundo afora. A “história dos historiadores” não pode oferecer nada disso sem repensar completamente seus fundamentos mais básicos. Historiadores sempre poderão oferecer seus serviços como consultores desse tipo de produto cultural, mas esperar que ocupem posições de comando é tolice – e de uma grande arrogância por parte dos pesquisadores. Não há saída mágica; se o passado não é propriedade de ninguém, a tarefa do historiador permanece ao mesmo tempo humilde e desafiadora: produzir conhecimento sobre o passado que desestabilize nossas certezas e mostre que o mundo (e a história) é maior que nosso próprio umbigo, com ou sem apelo comercial.

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Para que serve teoria da história? (Série Teoria da História, Parte 3)

Qual o papel da teoria na famosa “oficina” do historiador? Em que se beneficia o historiador ao fazer sua reflexão teórica? Por muito tempo o topos tão bem expresso por Pierre Chaunu, da tentação epistemológica, exerceu forte influência na historiografia profissional, e, talvez por isso, a questão da utilidade da teoria para a prática historiográfica seja ainda bastante nebulosa.

Em seu aspecto mais instrumental, a teoria da história é o que permite ao historiador esclarecer os conceitos que usa para dar sentido ao passado. Essa tarefa é importante não só por questão de rigor, mas também porque a história (enquanto conhecimento) lida com vocabulário corrente para explicar os fenômenos que estuda. Diferentemente da matemática, da física ou da química, que desenvolveram linguagens específicas, a história (como boa parte das outras ciências humanas e sociais) lida com uma estrutura explicativa que é muito próxima da linguagem corriqueira, do dia-a-dia, e, por isso, é preciso um esforço para delimitar o significado e o sentido dos seus conceitos. Alguns exemplos: a palavra “experiência” designa conceitos muito diferentes em E. P. Thompson ou em Foucault; “representação” se refere a fenômenos muito diferentes nos trabalhos de GInzburg, de Chartier ou de Ankersmit; o “contexto” da escola de Cambridge tem sentido muito diferente do sentido corrente da palavra. Assim, nesse primeiro aspecto, a teoria da história é a disciplina que permite ao historiador delimitar aquilo que estuda.

Há outros aspectos da teoria da história, no entanto, que são menos diretamente instrumentalizados no trabalho dos historiadores. Isso porque certas reflexões teóricas não lidam necessariamente com os conceitos usados para dar sentido ao passado, mas sim com o próprio trabalho de reunir evidências e produzir uma representação do passado com ambições de verdade e intenções cognitivas. Outras, ainda, investigam fenômenos que são condição de possibilidade para a empreitada dos historiadores, como o tempo. Nesses casos é mais difícil de perceber que tipo de utilidade a teoria da história tem para os historiadores em seu trabalho cotidiano.

Sempre se pode argumentar que a análise abstrata da racionalidade peculiar que permite ao historiador reunir materiais dispersos em uma narrativa com sentido bem definido não tem qualquer relação com a produção de um texto de história, e que, por isso, esse tipo de conhecimento não teria relação com a qualidade da narrativa histórica resultante do trabalho. Mas, então, só tem valor a reflexão teórica instrumental? Acho difícil sustentar tal visão.

Em que pese não terem ação direta e visível sobre a narrativa do historiador, os estudos sobre o caráter narrativo do texto histórico, o problema da representação histórica, as diversas relações possíveis com o passado – todos centrais para a teoria da história – têm o mérito de esclarecer os entornos do trabalho do historiador. Em outras palavras, a teoria da história é capaz de mostrar não apenas como funciona o texto histórico “em si”, mas também como esse texto funciona em relação à sua exterioridade – seus autores e leitores, as instituições em que circulam, as práticas e os discursos que sustentam. Se nós, historiadores, continuamos achando que isso “não presta para nada”… bem, o problema é nosso.

Recomendação de Leitura:

Os Historiadores e a Teoria, uma relação tensa (Série Teoria da História, Parte 2)

Tida como interface entre os campos da história e da filosofia, a teoria não goza de grandes paixões entre boa parte dos historiadores ocidentais. Para muitos, a teoria é como um “mal necessário”, e se deve envolver com ela o mínimo possível para realizar bem seu trabalho “de historiador”. Lucien Febvre já afirmava na década de 1930, que “[…] os historiadores não têm necessidades filosóficas muito grandes” – e ele não era o único. (Nosso colega, Lucas Pereira, publicou recentemente sua tese “Da Filosofia à História: os diálogos entre Foucault e os Annales”, em que faz um bom apanhado dessa conversa complicada). Perdi as contas de quantas vezes, na minha (ainda curta) trajetória acadêmica, ouvi professores e colegas dizendo que “teoria não serve pra nada”. Ninguém menos que Hayden White já afirmou que não adianta querer “pregar” o valor da teoria para os historiadores, porque “eles sabem o que estão fazendo” – e as recentes querelas em torno do seu par passado histórico/passado prático dão testemunho dessa relação desgastada. Há também certa surpresa por parte de alguns leitores estrangeiros em encontrar nas teses brasileiras o que acham um “excesso” de discussão teórica.

Ora, se a discussão teórica é meramente instrumental, como é comum no Brasil, me parece tolo dizer que a discussão teórica é “inútil”. Talvez ela não precise de um capítulo à parte, ou mesmo pertença apenas às considerações finais de um trabalho – mas sua ausência absoluta demonstra uma falta de rigor técnico que não me parece tolerável nas humanidades contemporâneas. Mas não me parece que é essa “teoria” que causa maior desconforto. A “teoria” que desagrada aos historiadores também não é necessariamente um retorno das “filosofias da história” do XIX – aliás, o sucesso de um Koselleck, um Hartog e um Gumbrecht dão testemunho de um renovado interesse pela reflexão substantiva em torno da história e de nossa relação com o tempo. A “teoria” que incomoda, ou assim me parece, é a que tenta entender como funciona o texto de história e as práticas de que ele resulta. A “teoria” que incomoda é, em outras palavras, aquela que os historiadores percebem (com maior ou menor justiça) como uma tentativa de vigilância vinda “de fora”.

Percebo muitas semelhanças entre a relação que os historiadores têm (nós temos) com a teoria e a relação que os “cientistas” têm com a filosofia da ciência. Em ambos os casos, a ideia principal é que aqueles que se dedicam ao trabalho teórico, mais reflexivo, sabem pouco sobre “a realidade” do “trabalho manual”, e que isso compromete sua capacidade de compreender e explicar os fenômenos a que se dedicam. Os teóricos tentam, segue a historieta, explicar fenômenos dos quais têm pouco conhecimento prático – de suas poltronas confortáveis avaliam os dedicados artesãos do conhecimento. No cenário anglo-saxão, em que a teoria da história é assunto pouco tratado nos departamentos de história (relegado aos domínios marginais da literatura comparada, da crítica literária, ou, “pior”, dos estudos culturais), a acusação me parece mais justa do que em terras brasileiras, em que os filósofos de ofício pouco se interessam pela área, e são indivíduos formados pelos e atuantes nos próprios departamentos de história que se encarregam da labuta teórica.

Não sei dizer ainda se compartilho do pessimismo de Hayden White, para quem existe pouca esperança de encontrar um “chão comum” entre a teoria da história e os historiadores – ver seu breve artigo The Practical Past (link abaixo). Retomando o paralelo que fiz com a filosofia da ciência, os argumentos de White parecem consistentes: boa parte dos cientistas pouco se importa com o que filósofos, sociólogos e historiadores da ciência têm a dizer sobre seu ofício. Será que estamos fadados ao mesmo destino? É claro que a teoria instrumental não deve desaparecer tão cedo, e o interesse renovado nos problemas da temporalidade deve fazer subsistir por algum tempo ainda certas especulações substantivas sobre o tempo histórico. No que se refere à análise dos pressupostos e do funcionamento da historiografia, no entanto… Talvez por isso a história da historiografia seja um gênero mais palatável (ainda que não seja adorado) ao nosso gosto de historiadores – afinal, trata-se de aplicar, como diz Certeau, um “gesto próprio” de historiador, de ligar uma prática a um lugar – em relação ao debate abstrato, conceitual da teoria.

Sugestões de Leitura:

Na próxima semana chega a parte 3: Para que serve a teoria da história?

O que é teoria da história? (Série Teoria da História, Parte 1)

Parece uma impertinência tentar responder uma pergunta tão genérica em uma postagem virtual, ou mesmo em uma série delas. Mas como bons historiadores sabemos que cada lugar de fala tem suas regras e suas particularidades, e uma das vantagens deste formato é a possibilidade de escrever mais ou menos livremente sobre mais ou menos qualquer assunto. Se isso não fosse o bastante, acho que não seria de todo maluco imaginar que existe uma enorme confusão a respeito dessa especialidade estranha que é a teoria da história. Então tiro vantagem de minha posição de “jovem pesquisador” para levar adiante esta impertinência.

Esta é a primeira postagem de uma série que começa aqui no blogue em torno da teoria da história: o que é? Para que serve? Quem pratica? É claro que são peças rápidas, mas espero que sejam de alguma forma instrutivas ou, pelo menos, provocadoras.

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Há pelo menos 2 maneiras de definir o que é teoria da história: uma mais pragmática, outra mais histórica. De maneira pragmática, ou seja, tendo em vista uma definição básica que nos permita trabalhar, podemos dizer que a teoria da história é a disciplina que tenta entender como um historiador consegue transformar documentos velhos e restos materiais em história. Os historiadores, suas práticas e seus valores são seu objeto. Há quem diga também, ampliando essa definição, que a teoria da história é a disciplina dedicada a entender as diferentes maneiras pelas quais o homem se relaciona com seu passado. Em suma, a teoria se debruça sobre o trabalho de construção de sentido que alguém realiza sobre “o passado”.

De um ponto de vista mais histórico, só podemos definir o que é teoria da história a partir de uma visada empírica sobre como diferentes tradições historiográficas definem o trabalho teórico. Por exemplo, na tradição francesa (que muito nos influenciou), o debate teórico é majoritariamente instrumental – discutem-se os conceitos que “historiadores de verdade” usam para dar sentido às suas narrativas históricas. Os casos mais famosos seriam a teoria das durações de Braudel, ou, mais recentemente, o conceito de representações sociais de Chartier. Podemos ver traços desse tipo de abordagem já no manual de Langlois e Seignobos, em sua rejeição às “filosofias da história”, bem como nos textos dos pais fundadores dos Annales, e mesmo na desconfiança de Le Goff com relação à relação entre história e filosofia.

Na tradição anglo-saxã floresceu a distinção entre filosofia substantiva, ou especulativa, e filosofia analítica, ou crítica, da história. O terreno da primeira seria o terreno dos filósofos clássicos da história, como Voltaire, Hegel e Marx, que buscavam desvendar o sentido e as leis do progresso histórico; a segunda se devotaria a esclarecer, com ajuda dos rigores da filosofia analítica, o funcionamento do texto histórico enquanto artefato produtor de conhecimento, abandonando as ambições metafísicas de falar sobre a história “em si”. Alguns dos debates mais famosos dessa tradição são aqueles em torno do covering law model, de Hempel e outros, em que se buscou entender como os historiadores poderiam desvendar relações de causalidade e, em última instância, leis gerais que explicariam cientificamente o passado; ou então os debates do narrativismo, em torno de nomes como Louis Mink, Arthur Danto, Hayden White, Frank Ankersmit & cia., em que o objetivo era investigar as características do texto histórico enquanto narrativa.

Fortemente influenciados pela tradição francesa, os estudos teóricos no Brasil permanecem marginais nos departamentos de História – ainda que sejamos um dos poucos lugares onde se pode ser, efetivamente, pesquisador na área. A teoria da história no Brasil era constituída, até recentemente, em torno do debate instrumental, e os conceitos debatidos teoricamente eram os conceitos norteadores da escrita de narrativas históricas “propriamente ditas”. Não é à toa que, entre os anos 80 e 90, a polêmica da vez seria a possibilidade de “usar” Thompson e Foucault em um mesmo trabalho de história… Alguns poucos autores se aventuravam nas águas turbulentas dos debates em torno do caráter narrativo da história, mas até pouco tempo essa era uma das especialidades mais marginais de nossa disciplina marginal.

Por tudo isso é difícil dar uma resposta definitiva para a questão, e qualquer ambição de resolver o problema definitivamente só trará, com certeza, frustração. De minha parte, fico satisfeito com a definição mais pragmática da teoria da história enquanto disciplina que investiga como funciona o trabalho complicado de transformar vestígios de um passado em uma história inteligível. Um leitor pouco crédulo teria todo o direito de dizer “Mas não é óbvio? Não é só pegar os documentos e fazer um texto?” Ora, tanto não o é, que abundam as imagens que os próprios historiadores usam para ilustrar sua concepção de seu trabalho: o ogro da lenda, de Marc Bloch; o detetive, de Carlo Ginzburg; o catador, de Michel de Certeau; apenas para citar alguns. Essas metáforas são uma das maneiras usadas pelos historiadores para compreender esse tipo específico de racionalidade que permite transformar documentos (textos, filmes, fotos, artefatos) em história. E é a teoria da história que explora as questões que envolvem essa racionalidade.

Sugestões de Leitura:

Agradecimento especial ao amigo Marcus Telles, pela leitura e comentários.

Fogueira das Humanidades

Os historiadores estão perdendo seu público, e buscar pela próxima tendência não vai trazê-lo de volta.

Por Samuel Moyn, professor dos departamentos de História e Direito da Universidade de Harvard

A história tem uma história, e historiadores raramente se cansam de discutir sobre ela. Ainda assim, pelos últimos séculos, os historiadores mantiveram uma trégua inquieta sobre suposição de que a busca por “fatos” deveria sempre ter precedência em relação à complicada e difícil tarefa de interpretá-los. De acordo com Arnaldo Momigliano, o grande pesquisador Italiano da antiguidade no século XX, foram os antiquários do Renascimento que, embora não escrevessem história, inadvertidamente tornaram a profissão histórica moderna possível ao repudiar as grandes teorias em prol do estabelecimento do precioso fato. Os antiquários coletavam resquícios do passado clássico, e, compreensivelmente, precisavam garantir a confiabilidade de seus artefatos em um período no qual tantas relíquias tinham origem duvidosa ou eram conhecidamente falsas. Momigliano citava o don de Oxford no século XIX, Mark Pattinson, que chegou a dizer sobre os antiquários – de maneira positiva – que “pensar não era sua profissão.” Esse pode ainda ser o credo sussurrado requerido para ser admitido na guilda.

Mais cautelosos que antropólogos, críticos literários ou cientistas políticos no que se refere a quadros especulativos, os historiadores geralmente estavam satisfeitos com sua habilidade de simplesmente dizer a verdade – como se ela fosse um segredo a ser descoberto através de achados factuais ao invés de um enigma a ser resolvido através da interpretação. Anthony Grafton certa vez honrou Momigliano com o título de “o homem que salvou a história”, e parece justo dizer que o italiano deu voz ao consenso de uma profissão que torna quase sagrados os fatos, e secundárias as teorias.

Mesmo quando os historiadores começaram a pensar um pouco, eles o fizeram cautelosamente. Se os antiquários meramente abriram caminho para a história moderna, para prosseguir era preciso fazer mais do que exibir a verdade duramente conquistada. Momigliano relatou que levou um tempo para que nossos ancestrais intelectuais do início da modernidade suspeitassem que poderiam sempre aprimorar os trabalhos dos historiadores clássicos de Grécia e Roma, graças aos novos fatos que, com dificuldade, haviam descoberto. Os verdadeiros antiquários simplesmente armazenavam seus bens e estremeciam de “horror à invasão dos recintos sagrados da história por uma gangue de filósofos fanáticos que viajavam muito leves”, escreveu vividamente Momigliano. Mas seus herdeiros, como Edward Gibbon, autor do estupendo Decline and Fall of the Roman Empire, perceberam que os contadores de histórias teriam de embarcar em especulações e “filosofias”, cercando fatos de um esquema intelectual para emprestá-los sentido. Os fatos, sozinhos, eram cegos, assim como a teoria, por si só, era vazia. Mas Momigliano, compartilhando da aprovação de Pattinson às origens antiquárias da história, reconheceu a necessidade de pensar quase em tom de lamento, como se os resultados fossem um inevitável prédio decrépito, construído sobre uma fundação sólida de fatos – estes sim pertinentes ao verdadeiro trabalho do historiador. Teorias podiam ser jogadas fora, e estórias renovadas conforme as modas mudassem, mas os fatos sobre os quais o prédio havia sido construído permaneceriam. A “ética” da profissão, atestou Momigliano, jazia na habilidade dos historiadores de permanecerem verdadeiros a eles.

Nos antigos dias do Iluminismo de Gibbon, a maioria dos esquemas nos quais os historiadores se baseavam eram teorias sobre as origens e o progresso da sociedade; nos dois séculos desde então, os historiadores estiveram dispostos a unir seus fatos a uma grande variedade de pretendentes, do nacionalismo ao marxismo e ao pós-modernismo. A disciplina passou por tantas supostas “viradas” teóricas que é francamente difícil acompanhar. Paradoxalmente, é porque a maioria dos historiadores viu as teorias com suspeita – como uma necessidade lamentável, no melhor dos casos, para dar aos fatos uma vida – que eles frequentemente se tornaram buscadores de tendências. Precisamente porque são erráticos, oportunísticos e superficiais em sua atitude a respeito da especulação, os historiadores parecem mudar de teorias populares com frequência, tratando-as não como fundações sobre as quais contruir, mas como trajes sasonais para vestir os fatos tão assiduamente recolhidos.

***

Hoje, os historiadores temem que tenham perdido seu público, e sua angústia fez com que a busca pela próxima tendência se tornasse especialmente urgente. No começo de seu novo livro, Writing History in the Global Era, Lynn Hunt nota que “a história está em crise” porque ela não consegue mais responder à “incômoda questão” de por que a história seria importante. David Armitage e Jo Guldi, em seu History Manifesto, concordam: em face da atual “fogueira das humanidades”, e da desastrosa perda de interesse em um tópico no qual a cultura costumava investir pesadamente (e em aulas que os estudantes costumavam frequentar aos bandos), é crítico definir uma nova vocação profissional. A história, tão frequentemente vista como um “luxo” ou uma “indulgência”, precisa descobrir como “manter as pessoas acordadas à noite”, como disse Simon Schama. Na verdade, o problema é pior: hoje os estudantes têm infinitas diversões para as horas vagas; o problema dos historiadores é mantê-los acordados durante o dia.

Nas últimas décadas, Hunt teve o faro mais confiável para novas tendências na profissão histórica americana, e o que ela considera importante sempre corresponde a mais do que a soma dos seus entusiasmos atuais. Você pode até não gostar das empreitadas nas quais ela embarca; você pode tentar explodir um dos seus vagões – como eu mesmo fiz nestas páginas quando ela inventou a história dos direitos humanos – apenas para, mais tarde, se ver decididamente embarcado nele. O que você não pode questionar é que ela tenha um instinto sobrenatural sobre a “nova coisa nova” sendo usada pelos historiadores para estudar coisas antigas.

Como alguns outros lançadores de tendências, Hunt, que recentemente se aposentou da UCLA, foi treinada nos anos de 1970, durante a maré crescente da história social, quando o que mais importava era aprender sobre o homem – e, ainda mais importante, a mulher – ordinário(a), perdido pelo enorme desdenho da posteridade. Tendo focado por séculos em reis (e, eventualmente, presidentes) e suas guerras, e diplomatas, e negociações, os historiadores perceberam que tinham majoritariamente ignorado as forças sociais pulsando de baixo, e desejavam se identificar com as pessoas esquecidas que haviam sido excluídas da história simplesmente porque não eram da elite. Historiadores sociais frequentemente tinham simpatias pela esquerda, e, seguindo a ambição do luminoso The Making of the English Working Class (1963), de E.P. Thompson, queriam que a história social narrasse a ascensão na consciência política dos trabalhadores (e, depois, de outros grupos oprimidos ou marginalizados) que mereciam justiça. Por estarem interessados na forma da sociedade e não apenas em suas classes trabalhadoras, historiadores sociais se basearam em um então novo corpo de pensamento. Não apenas a política de esquerda, mas também o marxismo enquanto uma teoria da sociedade prosperou sob o reinado da história social; com isso, toda a tradição desse pensamento, do Iluminismo a Émile Durkheim e Max Weber, tornou-se canônica.

Hunt deixou o grupo nos anos de 1980, migrando para o que ela famosamente nomeou de “nova história cultural”. Mundos se encheram de significados, descobriram os historiadores sociais renegados, e as representações de poder que as pessoas criam, os rituais que praticam, e as maneiras pelas quais elas interpretam seus mundos agora revelavam informações básicas sobre a ordem social. Não bastava entender a estrutura de classes no período da Revolução Francesa, Hunt argumentou em seu famoso livro Politics, Culture, and Class in the French Revolution (1984); também era preciso entender o mundo dos símbolos políticos e a “cultura política” que dava significado à ação social – especialmete porque as classes acabaram por não importar tanto quanto os marxistas acreditavam. Trocando o marxismo pela antropologia e as teorias “pós-modernas”, a nova história cultural foi, entre outras coisas, um protesto contra a tabulação de pessoas de acordo com categorias estáticas como “os trabalhadores” ou “os camponeses”, e seu sucesso coincidiu com o fracasso dos esforços políticos em prol de maior igualdade social.

Então Hunt mudou de ideia novamente. A tinta de The Family Romance of the French Revolution (1992) – uma aplicação criativa da psicanálise, originalmente individualizada, de Sigmund Freud a um evento coletivo, e que permanece seu livro mais interessante – mal havia secado quando ela declarou que a “teoria” havia ido longe demais. Parecia, reclamou Hunt, que se tratava de nada mais que uma receita para dizer qualquer coisa. “Os pós-modernistas frequentemente colocam a palavra ‘realidade’ entre aspas para problematizar o ‘lá’ que há lá fora”, escreveu junto de outras colegas em Telling the Truth About History (1994). Mas essa afirmação não era ela mesma realista – o ponto da teoria é de que nenhuma “realidade” é auto-interpretativa – e seu veredito dificilmente poderia provar a inutilidade de quadros interpretativos mais amplos, exceto àqueles que já os tratavam como secundários anteriormente. Assustada pelo turbilhão de modismos que pareciam ameaçar trazer o mero caos, Hunt se abrigou junto aos fatos. Declarou que a virada cultural havia sido um grande engano, e o pós-modernismo um emaranhado de erros. De quaisquer céus ou infernos nos quais residam, os antiquários sorriram.

***

Mas se os fatos proveem refúgio permanente aos historiadores, as modas continuam a seduzi-los. Depois de vinte anos, Hunt está novamente examinando as últimas tendências, e as opiniões que oferece sobre elas em Writing History in the Global Era não deveriam ser encaradas levianamente. Ela começa revisando a mudança de uma história social para uma história cultural. Confessa que um dos grandes problemas da busca de “significados” no passado é que se trata de algo tão vago a ponto de se tornar inútil, mesmo se tal tarefa consegue mostrar que uma das limitações da história social havia sido o foco incessante em processos anônimos e supostamente objetivos. Mas a história cultural provou ser outro beco sem saída. Hunt explica com uma metáfora diferente: “O que começou como uma crítica profunda dos paradigmas dominantes acabou parecendo menos como um aríete pronto a derrubar portões e mais com o conhecido som de uma descarga no banheiro.” Na narrativa de Hunt, a necessidade clara, mesmo há duas décadas, era por um novo “paradigma” para ser aplicado aos fatos pelos historiadores. Mas o que é isso?

Enquanto a história cultural frequentemente enfatizou o pequeno e o local, continua Hunt, a onda atual de interesse na “globalização” favorece o longínquo. Essa onda se nomeia com base em um processo exaltado por Thomas Friedman e execrado por Naomi Klein, e Hunt mostra que os historiadores dificilmente estiveram imunes à descoberta repetina do mundo além de seus antigos e estreitos redutos nacionais ou regionais. Ela também mostra que o próprio termo “globalização” passou por um crescendo nas últimas duas décadas, com livros e artigos jorrando de editoras, oferecendo histórias globais de um amontoado de assuntos. Pudemos ler histórias globais do bacalhau, dos quadrinhos e do algodão, e uma editora oferece uma série dedicada aos relatos globais de alimentos como figos, vísceras, panquecas e pizza. A história do século XIX do historiador alemão Jürgen Osterhammel, The Transformation of the World, mostra como era a vida quando levávamos oitenta dias para viajar ao redor do globo, antecipando nossa era de movimentos supersônicos de pessoas e transmissão instantânea de bytes. Até Hunt recentemente entrou na dança, editando um livro sobre a Revolução Francesa de uma perspectiva global.

Proponentes da história globalizante têm argumentado persuasivamente que a história permaneceu “eurocêntrica”, mas Hunt questiona corretamente se a atual moda de escrever a história através de grandes espaços faz algo mais do que drasticamente expandir a tela para a representação histórica. “A globalização é um novo paradigma para a explicação histórica, que substitui aqueles criticados pelas teorias culturais?”, pergunta ela. Essa nova abordagem pode ampliar a escala de estudos, focando em trocas de longa distância, impérios longínquos ou guerras fronteiriças, mas tal perspectiva poderia simplesmente pintar montanhas maiores de fatos à vista, sem explicar o que eles significam ou por que eles importam.

O que a história global definitivamente não prova é que as autoridades clássicas para interpretação do passado se tornaram obsoletas, especialmente porque o próprio Karl Marx descreveu o fenômeno hoje chamado de globalização. O ponto de partida de Hunt é diferente. Ela argumenta que, como sua turma de historiadores culturais danificou irreparavelmente as teorias sociais que comandaram a história do tempo de Gibbon até o nosso, as opções para escrever a história agora se reduzem a duas. Uma é seguir sem nenhum “paradigma” reinante, que Hunt diz que a história cultural nunca teve – pelo menos nada além de um comprometimento geral com a retomada do significado do passado, sem consenso a respeito de como interpretá-lo. Outra opção é inventar um novo paradigma. O medo de Hunt é que a globalização acabará preferindo os tipos de quadros nos quais os historiadores sociais uma vez confiaram, uma vez que traz para o primeiro plano os processos anônimos uma vez tão bem quistos por eles. A globalização poderia, então, tornar obsoletos os insights da revolução cultural que Hunt originalmente apoiou, sem fazer qualquer coisa para levar os historiadores além dos limites que ela hoje pensa serem intrínsecos a um foco global.

De sua parte, Hunt deixa claro que sua necessidade por um novo sistema não é um consenso dentro da profissão. Convencionou-se agrupar Hunt com seus colegas de geração Joan Scott e William Sewell, uma vez que os três abandonaram a história social em grupo e todos os três têm regularmente explicado suas viradas ao longo dos anos. (Sewell é o autor do maior livro no cenário historiográfico, Logics of History: Social Theory and Social Transformation [2005].) Mas, como nota Hunt, Scott permaneceu junto ao pós-modernismo – aparentemente acreditando mais do que Hunt na capacidade de defendê-lo – enquanto Sewell “regrediu” para o marxismo. Hunt não se satisfaz com nenhuma dessas escolhas: “É preciso que os historiadores escolham entre um retorno a paradigmas antigos ou a sua ausência total?”, ela pergunta.

Para que Hunt formule essa questão, suas duas premissas – que a história cultural devastou completamente a teoria social, e não produziu nenhuma visão de mundo interpretativa própria – precisam suportar um grande peso. Talvez peso até demais: Sewell não acha que a primeira seja verdadeira, enquanto Scott se indignaria com a segunda. Aliás, podemos nos perguntar se a raiz do problema não seriam as montanhas russas de abordagens e seus infinitos loops, produzindo sempre a necessidade de uma nova teoria nova.

Bravamente, Hunt segue adiante para moldar seu próprio paradigma, no que é o capítulo mais interessante de seu livro. Ela conclui que os historiadores precisam de uma forma inovadora de abordar a sociedade – ou, mais precisamente, de uma teoria a respeito da relação mútua entre indivíduo e sociedade. Nem história social, nem história cultural, abordagens que mergulharam o indivíduo em um sistema maior de forças ou significados – frequentemente a ponto de torná-lo completamente insignificante –, poderiam dar conta da tarefa, diz Hunt. Mas há boas notícias: “Ideias a respeito da conexão indivíduo-sociedade estão agora emergindo de uma conjunção improvável de influências.” Seu objetivo é enunciar quais são essas ideias, como fontes para um novo paradigma.

Duas das fontes de Hunt são a neurociência evolutiva e a psicologia cognitiva, com as quais ela lidou em um trabalho anterior. Seu entusiasmo por elas parece estranho, dado que o governo dos processos biológicos não é menos anônimo e determinista do que a virada globalizante que apaga o agenciamento humano. Importar teorias ultramodernas de outros campos esotéricos e apoiar-se em trabalhos de pop science não parece ser a receita do sucesso. Você se lembra da leva de historiadores do final do século XIX e início do XX que apostaram no racismo científico? Ninguém se lembra, exceto enquanto histórias de advertência, porque seus trabalhos são inúteis.

O que é ainda mais confuso é que Hunt enxerta essas tendências em um retorno à tradição desgastada da teoria social que ela explicitamente admite ser simplesmente uma versão mais ampla das abordagens que a história cultural supostamente superou. A ideia de que “o social é a base do significado” – na fórmula final de Hunt – foi central a uma tradição de pensamento que vem do sábio napolitano Giambattista Vico até Durkheim, Marx e Weber. Pode ser que os historiadores sociais tenham interpretado muito mal essa tradição em seus esforços para pensar a sociedade nos termos de categorias amplas de pessoas, assim como historiadores culturais repetiram o erro de maneira inversa ao celebrar o “significado” enquanto um objeto à parte. Mas na sua proposta de retorno ao social, Hunt está essencialmente admitindo que progredimos não ao buscar um novo paradigma, mas ao consertar enganos passados. E um dos maiores dentre esses enganos é a ideia modista que afirmou que os historiadores teriam de escolher entre estudar a sociedade ou estudar a cultura, mesmo que essa falsa escolha já tenha feito algum sentido para Hunt e sua geração.

Por essa razão, o livro de Hunt às vezes parece dizer que teríamos de viver a vida intelectual dela para segui-la em sua empreitada para construir um novo paradigma. Pode ser, no entanto, que toda essa conversa de “paradigmas” seja enganosa – uma distração do fato de que a relação entre indivíduo e sociedade tem sido a preocupação constante da teoria social desde sua origem, e que existe uma enorme gama de opções a serem exploradas e melhoradas dentro dessa tradição. Hunt repudia a posição pós-moderna comum de que o indivíduo é um produto histórico, como se simplesmente propor um meio-termo entre as demandas da sociedade e do indivíduo fosse algo específico ou suficiente. Mesmo quando se trata dos seus floreios modistas neurocientíficos, Hunt os conecta com um velho pensador francês, Maurice Merleau-Ponty, e sua ampla noção de que a individualidade é corporificada. Mas como Marcel Gauchet, um outro francês contemporâneo no qual ela se inspira batante, Merleau-Ponty é apenas uma figura dentro de um rico conjunto de recursos no pensamento social.

Hunt levanta, mas não resolve, aquilo que pode ser o dilema principal para os historiadores hoje. A emergência da história global inevitavelmente faz com que nos perguntemos se as categorias – começando pela de “sociedade” em si – que o Ocidente criou para estudar a si mesmo são aplicáveis aos povos de todos os tempos e lugares. Hunt repudia comentadores extremistas que insistem que as categorias ocidentais só podem explicar as coisas do Ocidente. Mas não fica claro se isso basta para superar o problema.

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Enquanto Hunt quer acertar contas com a moda da globalização, Armitage e Guldi estão interessados em escalas maiores de tempo, e não apenas em espaços geográficos expandidos. Armitage, um colega de confiança meu em Harvard, nunca esteve ele mesmo acima da busca por tendências, tendo já ajudado a definir o estudo de áreas como a história do Atlântico, a história do Pacífico e a história internacional. Agora ele tem alguns novos temas – história de longa duração e história presentista – e, em seu esforço para explicá-los, tem a ajuda de Guldi, uma jovem garota prodígio especializada em “big data“.

Seu argumento estimulante segue da seguinte maneira: nas últimas poucas décadas, os historiadores deixaram de lado sua ênfase no que o historiador francês Fernand Braudel chamou de longue durée. Em sua celebrada história do litoral do Mar Mediterrâneo, publicada em 1949, Braudel insistiu na realidade superior dos ritmos de longa duração da vida. As forças poderosas da demografia e do ambiente, pensava Braudel, tornavam os invidíduos – mesmo os reis – mera “poeira”. Armitage e Guldi oferecem uma série de razões para explicar por que, ao contrário do exemplo inspirador de Braudel, os historiadores optaram pelo tempo curto. Talvez o motivo principal tenha sido a história cultural: os “significados” pareciam inevitavelmente ligados a tempos e lugares específicos, de maneira que passariam despercebidos pelas histórias grandiosas através de tempos muito diferentes. Mas havia outras razões também, como a pressão para encontrar novos tópicos na competição profissional por espaço. Os resultados, acreditam Armitage e Guldi, foram profundos, conforme a escala temporal média dos livros de história foi abruptamente comprimida.

Mas recuperar nossa sensibilidade ao que o par chama algo misteriosamente de “vibrações do tempo profundo” não é apenas uma tentativa de retornar às remotas pesquisas de Braudel sobre as eras. A verdadeira razão para ascender a alturas olímpicas e ao olhar abrangente que elas permitem, dizem Armitage e Guldi, é para se aprofundar nos assuntos políticos da cidade. Perguntam eles: como é que desde os tempos clássicos a história teve o papel de magistra vitae – grosso modo, a mestra da vida – e especialmente como guia em assuntos políticos, mas agora foi rudemente deslocada por outros campos, em especial pelo deprimente (e frequentemente desastroso) pensamento econômico? A história costumava ser, se não exatamente filosofia, então pelo menos “a filosofia ensinando por exemplos”, como Tucídides disse originalmente, e como o Visconde de Bolingbroke repetiu no início da modernidade em suas Letters on the Study and Use of History (1735).

Em seu apelo pela relevância, Armitage está indo contra a famosa instrução de seu mentor, o professor da Universidade de Cambridge, don Quentin Skinner: se é preciso pensar, devemos fazê-lo “por nós mesmos”, sem a ajuda da perspectiva histórica. Enquanto Skinner deu voz à visão convencional dos antiquários, de que o papel da escrita da história é o de separar o presente de passados muito diferentes, Armitage e Guldi insistem no valor operacional do trabalho histórico, e, de fato, pelas mais nobres causas públicas. Depois de contar a história do culto do tempo curto, ambos se voltam às urgentes razões políticas para abandoná-lo e fazer o tempo longo ter algum peso sobre o nosso presente, com a ajuda de novas ferramentas digitais. Dizem eles: os historiadores precisam mergulhar nos vastos arquivos digitais disponíveis atualmente, de informação facilmente pesquisável, e, comparada aos quais, sua velha busca por documentos arquivísticos parece estreita e antiquada.

Mesmo que tenham algumas coisas sábias e profundas a dizer sobre os novos serviços que o Big Data proporciona, Armitage e Guldi deixam claro que seu objetivo não é o de que todo historiador se dedique à longa duração. Em sua defesa, eles citam ninguém menos que Lynn Hunt. Enigmas de tempos e lugares específicos sempre continuarão a ser confrontados; mas, para Armitage e Guldi, a “nova nova coisa” verdadeiramente estimulante é que dados computadorizados e o poder dos computadores permitem um conjunto de soluções rápidas a desafios que Braudel e sua trupe levaram uma década para decifrar. E essas soluções poderiam, por sua vez, permitir o retorno dos historiadores à cena pública, seja em debates sobre governança internacional ou reforma agrária global, argumentam.

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Armitage e Guldi são cuidadosos ao distinguir sua noção de longa duração de outros clamores por uma história “profunda” ou “grande”. Dado seu cientismo, Hunt tem uma queda pelo pedido de profundidade, associado com outro pesquisador de Harvard, Daniel Smail, autor de On Deep History and the Brain (2008). Smail se recusa a restringir a história da humanidade aos últimos poucos milênios e seus registros documentais, quando a arqueologia e, especialmente, a biologia nos proveem de ferramentas para estender a história para muito antes. Para os seguidores da “grande” história, como o pesquisador australiano David Christian, histórias “profundas” que iniciam tão tarde – com os seres humanos – são, em si mesmas, pouco ambiciosas. E esse é um argumento que ressoou além da torre de marfim. Bill Gates tem estimulado que escolas ensinem história a partir do Big Bang. “Eu simplesmente amei,” disse Gates ao The New York Times sobre sua experiência de se exercitar em sua esteira enquanto assistia Christian explicar o conceito de big history em um vídeo. “Foi muito esclarecedor para mim. Eu pensei, meu Deus, todo mundo deveria ver isso!”

Tomara que não. Além do fato de que o cientismo de Gates sacrifica a perspectiva crítica que as ciências humanas aprenderam a manter desde seu flerte desastroso com a biologia e as outras ciências naturais no século XIX, o problema com expansões massivas da linha temporal, mesmo que apenas para a totalidade da história humana, é simples: elas forçam os historiadores a se tornarem cientistas, efetivamente convertendo sua disciplina no que já é o trabalho de outras pessoas. Os historiadores de Gates já existem: eles se chamam físicos. Em todo caso, não é isso que Armitage e Guldi parecem querer. Eles insistem, com razão, que as investigações humanísticas como a história deveriam fornecer uma alternativa aos “modelos de leis naturais de antropólogos evolucionistas, economistas e outros árbitros de nossa sociedade.” Mais que isso, a expansão excessiva sacrifica a ideia de que o drama da história humana jaz no destino de nossos fins, e, portanto, no que mais podemos nos importar, mesmo quando afeta o mundo não-humano.

Ainda assim, mesmo em seu chamado relativamente modesto por longas temporalidades para enfrentar problemas no calor dos acontecimentos (incluindo literalmente o calor da terra), Armitage e Guldi não têm respostas àquela que sempre foi a questão mais difícil: como você interpreta os fatos ao longo de escalas temporais, sejam pequeninas ou enormes? Assim como o globo oferece um espaço maior, uma maior linha do tempo apenas torna possível um quadro mais longo. Para pensar sobre o que acontece nas terras ensolaradas para além do confinamento dos limites de lugar ou tempo você precisa de uma teoria. Dados – incluindo big data sobre a longa duração – nunca se interpretam sozinhos. Nem a orientação para o passado com vistas ao futuro é apenas um problema para o qual a solução é mais informação; trata-se, em última instância, de um problema filosófico que só a especulação pode resolver. Esse era o objetivo da teoria social de Vico a Marx: integrar os indispensáveis fatos tendo em vista o devir humano, que nunca careceu de dimensões éticas e políticas. Sem dúvida, é disso, mais que tudo, que as pessoas precisam hoje, e não apenas de uma inclinação para a longa duração.

Armitage e Guldi não tem utilidade para Marx exceto para inspirar seu título, e para permitir que comecem seu livro invocando o espectro da longa duração e o terminem convocando os historiadores do mundo a se unirem. Diferente de Hunt, eles não consideram o novo alcance cronológico – como o espaço maior da globalização – enquanto algo que tem de ser preenchido por uma teoria ou outra que permita novos ou grandes (ou velhos, ou pequenos) dados sejam interpretados de maneiras interessantes. Ou, se consideram, esse não é o foco de seu chamado à ambição.

Mesmo nossos lançadores de tendências mais arrojados, então, não veem o muro entre história e filosofia como a fronteira final a ser ultrapassada, em parte porque ela foi a primeira a ser erguida para definir a disciplina pelos antiquários apaixonados pelos seus fatos. Armitage e Guldi lembram sabiamente que “viradas críticas” da moda escondem “velhos padrões de pensamento que se tornaram enraizados.” Destes, o mais duradouro não é a afeição pelo tempo curto, mas a recusa a arriscar a segurança dos fatos em prol de uma fusão de história e filosofia.

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Em 1966 Hayden White publicou “The Burden of History“, seu ataque ainda vigoroso aos seus colegas de profissão. “A história talvez seja a disciplina conservadora por excelência”, escreveu White, saindo na ofensiva, e talvez mais que tudo contra a ética factológica tão central ao ofício moderno. As consequências, de acordo com White, eram graves: “Conforme a história se torna cada vez mais profissionalizada e especializada, o historiador ordinário, preso na busca pelo documento desconhecido que o tornará uma autoridade em um campo estreitamente definido, teve pouco tempo de se informar a respeito dos últimos desenvolvimentos nos campos mais remotos da arte e da ciência.”

Momigliano escreveu uma polêmica notória contra White (um antigo professor meu) precisamente por denegrir a recuperação da verdade factual, a qual ele pensava ser central à história. Mas se Momigliano transformou tal recuperação em um imperativo punitivo do superego histórico, White queria sugerir uma nova “ética” para a história – uma que teria espaço para a teoria, ou mesmo insistiria em ver além do contraste entre história e teoria, a serviço do presente. Com quase 90 anos de idade e ainda à frente de seu tempo, White está de volta este ano com seu vigoroso novo livro, The Practical Past.

Uma vez que o passado precisa ser prático para nós – não há motivo para se importar com ele, exceto enquanto ele for útil ao presente – White começa seu livro colocando novamente a “ética” profissional de Momigliano em seu devido lugar:

A maneira mais velha, retoricamente estruturada, de escrita da história promoveu abertamente o estudo e a contemplação do passado como propedêutico a uma vida na esfera pública, como um fundamento alternativo à teologia e à metafísica (sem mencionar enquanto alternativa ao tipo de conhecimento que se pode derivar da experiência do que Aristóteles chamou de vida “banal” do comércio e dos negócios), para a descoberta ou invenção de princípios pelos quais responder à pergunta central da ética: “O que eu devo (posso, tenho de) fazer?” Ou, para colocar nos termos de Lenin: “O que há para ser feito?”

Parece como se, de maneiras indiretas, todos os atuais seguidores de tendências historiográficas finalmente concordassem com White, em face do que eles consideram como uma grande crise da escrita da história hoje. Mas uma coisa é pedir por especulação em prol da relevância, e outra buscar um novo casamento entre história e filosofia. Para a próxima geração, uma coisa é clara: pensar terá de se tornar nossa profissão.

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Tradução feita com autorização do autor e de John Palattella, editor do The Nation.

Link para o texto original: Bonfire of the Humanities.