Marcado: campo historiográfico

Diário de Pesquisa, 2: escrevendo o projeto (I, o quadro conceitual)

Esta semana submeti, finalmente, o projeto para avaliação da Fapesp. Resolvi deixar aqui um relato sobre a feitura da peça que talvez possa ser de algum interesse, ainda que marginal. Antes de mais nada, registro os agradecimentos aos leitores e comentadores de versões preliminares do projeto – professora Karina Anhezini, professor Miguel Soares Palmeira, bem como seu excelente grupo de orientandos (e agregados) na USP. Tenho certeza de que a proposta ganhou em muito com cada comentário e pergunta; acredito que o texto “final” incorporou muitas das sugestões e respondeu em algum grau a maior parte dos comentários. O professor Hélio Rebello Cardoso Jr., que me orientou durante o doutorado, também tem sido um interlocutor importante e um incentivador sem o qual eu talvez já tivesse desistido da vida acadêmica.

Quando comecei a escrever o projeto, tinha pouca coisa em mente além da ideia mais ou menos confusa de construir um instrumento de pesquisa que facilitasse a tarefa de historiadores da historiografia interessados nos períodos mais recentes da historiografia brasileira – mais especificamente, a configuração que nossa produção tomou com a consolidação dos programas de pós-graduação como instâncias centrais na produção historiográfica brasileira. O problema é que essa tarefa (embora complicada) não me pareceu ser suficiente para que o projeto fosse financiado com uma bolsa – e conversas com alguns colegas e professores confirmaram essa impressão.

Muita gente sabe da minha desconfiança em torno de balanços bibliográficos, da ideia de tendência, das figuras de “escolas” ou “tradições” historiográficas… Em primeiro lugar, bons balanços presumem um domínio ao mesmo tempo quantitativo e qualitativo do tema que se vai recensear, que, nos dias atuais, desemboca em duas alternativas: (1) balanços muito especializados, com boa densidade de materiais, ou (2) balanços amplos, mas que deixam de fora grande quantidade de trabalhos (geralmente sob a justificativas sem grandes rigores de método, envolvendo representatividade, relevância, etc.). Os primeiros geralmente têm um público relativamente restrito; os segundos raramente tratam com justeza a produção vinda de lugares periféricos no campo.

Quanto às “tendências”, tenho sempre a impressão de que, em boa parte dos balanços bibliográficos, assume-se como tendência aquilo que se faz, ou que se gosta. Nas análises mais robustas, o problema da tendência é outro, de categorização: em que nível devemos localizar as tendências? Nos recortes cronológicos? Geográficos? Temáticos? Teóricos? Em um cruzamento de tudo isso, ou de alguns desses níveis? E o que o resultado desse cruzamento diz da área? Parece tudo um pouco nebuloso. E o próprio termo “tendência” já me causa algo de uma estranheza – associando rapidamente ao inglês “trend” e à tópica de “moda”, que, assim me parece, leva a caminhos nos quais é fácil deslizar para uma crítica superficial de “modismos” e dos temas que o recenseador considera mais ou menos “relevantes”.

Finalmente, “escolas” e “tradições” são o tipo de categoria de certo valor pedagógico, mas de baixíssimo valor analítico. Escola, porque a frouxidão dos critérios para se estabelecer o pertencimento a esse conjunto conduz rapidamente a monstros conceituais como “escola dos Annales”, que ninguém sabe direito dizer o que foi/é. (A pesquisa da Mariana Oses, sob orientação do professor Miguel, explora de maneira muito perspicaz a multitude de sentidos que subjazem ao “mito”). Tradição, tanto pior, que pode se referir a qualquer coisa cujo nexo com o nosso objeto não sabemos bem precisamente delimitar, mas que temos a sensação de que existe.

O problema é que, com essa minha chatice teórica, sobra muito pouco para justificar um estudo abrangente da historiografia universitária brasileira. Se não é para falar de tendência, de escolas ou de tradições, esse estudo fala de quê? Bem, aí optei por tirar a poeira dos meus livros do bom e velho Pierre Bourdieu, e achei que o conceito de campo poderia ser útil. Isso porque, embora Bourdieu nunca tenha produzido um trabalho sistemático, explicando cada cantinho do conceito, as suas inúmeras aplicações dão mostras de que se trata de uma ferramenta capaz de satisfazer minha avaliação de rigor (é um conceito que mobiliza categorias bem definidas) e, ao mesmo tempo, não prescreve grandes estruturas para o trabalho com as fontes (é no contato com elas que podemos, enfim, propor quais os atributos relevantes de trabalho). É verdade, esse potencial depende quase que inteiramente do rigor prático do próprio pesquisador, e o conceito pode, sim, se dar a usos menos rigorosos, sem problemas. Mas tendo em vista que o banco de dados lida com um conjunto de metadados sobre as teses e seus autores/orientadores, achei que o encaixe entre materiais e ferramentas seria particularmente rico. Veremos se o será ao longo da pesquisa.

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“The History Manifesto”

Em Outubro de 2014 Jo Guldi e David Armitage, professores em Brown e Harvard, respectivamente, publicaram um manifesto em defesa do “retorno” à macro-história. Para eles, a história das longas durações seria a mais capaz de restabelecer a importância da historiografia na construção de políticas públicas, bem como de habilitar os historiadores a se posicionarem em debates contemporâneos, marcados pela visão curta e imediata dos fenômenos. O texto está disponível abertamente no site oficial do livro.

Entre muitas reações, o destaque fica por conta da American Historical Review, que conta com um uma crítica voraz de Deborah Cohen e Peter Mandler, professores na Northwestern University e em Cambridge, respectivamente. O texto abre com a seguinte passagem: “É provavelmente da natureza dos manifestos ter vistas curtas e ser um pouco autoritário: eles são os gritos de guerra que levam os soldados para a batalha. Por essa razão, a história é um assunto quase unicamente inadequado aos manifestos.” Os textos estão disponíveis em livre acesso no site da revista.

Links:

François Hartog fala sobre seus trabalhos e sobre historiografia

Divulgo aqui uma entrevista concedida pelo prof. François Hartog (diretor de estudos na EHESS) e publicada na revista História da Historiografia no ano passado (2012). Trata-se de uma entrevista interessante a quem se interessa pelos temas abordados pelo historiador francês – que recentemente “emplacou” seu conceito de regimes de historicidade em terras brasileiras, numa leitura bastante interessante de Reinhart Koselleck. Desde os anos de 1980 o prof. Hartog se dedica a explorar os caminhos da historiografia antiga e moderna, sendo grande conhecedor da historiografia grega antiga e autor de obra relativamente vasta.

Gostaria de destacar um trecho que considero bastante interessante da fala do prof. Hartog:

4. Podemos retornar ao tema colocado sobre François Dosse e pensar que o trabalho de Dosse, Patrick Garcia (1958-…), Christian Delacroix (1950-…) era uma tentativa de dominar um campo de estudos sobre historiografia na França. O senhor não acredita que isso seja verdadeiro?

FH: Sim, trata-se justamente da questão se a historiografia é uma disciplina ou não. Houve a tentativa de Carbonell como ponto de partida, que publicou outrora na pequena coleção “Que sais je?” da Imprensa Universitária da França (Presses Universitaire de France), L’historiographie. Era a maneira de dizer: “isto existe”! E sua vocação era de ser uma disciplina ou, ao menos, uma subdisciplina. Todavia, por diferentes razões Carbonell saiu de cena e, de todo modo, sua maneira de agir não era tão interessante assim. Depois veio François Dosse, Patrick Garcia e Christian Delacroix, este trio que, à sua maneira, há alguns anos tenta constituir alguma coisa como um campo de historiografia. Isso começou com a revista Espaces temps, continuando em suas práticas docentes, e enfim com a edição publicada pela Gallimard, em dois volumes Historiographies: concepts et débats. É uma obra coletiva, com a ideia de que há um domínio e do qual eles são os fiadores e organizadores. Domínio bastante amplo e internacionalizado, considerando seu sumário.

Pessoalmente, eu mantenho certa distância disso tudo. Eu não acredito que a historiografia seja uma subdisciplina. E talvez seja preciso distinguir entre uma posição, eu diria, intelectual e necessidades institucionais. Talvez seja necessário que haja pessoas que cuidem desta dimensão institucional, para permitir o exercício de uma atividade intelectual. E talvez eu seja excessivamente indiferente a isto. Então, eu compreendo que se tenha esta atitude, mas não é um papel que tenho interesse em assumir, não é um papel que me convém. Não aprecio as fronteiras, nem os limites, nem as “atribuições de residência”, que seja na antiguidade ou na contemporaneidade, seja na literatura. Não concebo de outra maneira meu trabalho senão por este deslocamento. Não tenho, de forma alguma, a pretensão de dar isso como exemplo. Eu aceito mesmo que se possa estar em desacordo com isso. Acontece, finalmente, que sempre foi assim que trabalhei e que, dada a idade que tenho, é difícil que isso vá mudar.

Link para a entrevista: clique aqui.

“O Lugar da Teoria-Metodologia na Cultura Histórica” de José Carlos Reis

Divulgo aqui um importante artigo de 2011, de autoria do prof. José Carlos Reis (UFMG), cujo título é bastante direto e deixa seu objetivo explícito: qual é o lugar da teoria da história e da metodologia da história em nossa prática profissional? Se grandes historiadores como Michel de Certeau já diziam que a “prática sem teoria desemboca necessariamente, mais dia menos dia, no dogmatismo de “valores eternos” ou na apologia de um “intemporal”.”, para outros, como Pierre Chaunu, apenas os “grandes mestres” deveriam operar o esforço reflexivo que as disciplinas da teoria e da metodologia implicam.

Cito, então, parte do último parágrafo do texto de José Carlos Reis, que me parece positivamente provocativo:

Está longe de mim a pretensão de encerrar a polêmica com essa simples comunicação e até admito que seja possível que esteja equivocado, que esteja defendendo uma posição superada, talvez eu seja já um “dinossauro historiográfico”, daqueles que propõem discussões que não interessam mais a este presente cultural pós-1989. Por isso, estou curioso e atento, quero saber o que pensam os jovens historiadores da era pós-1989 sobre o lugar da teoria-metodologia na cultura histórica como ensino e pesquisa.

Link para o artigo: clique aqui.