Marcado: debate

Sobre mudar de ideia

Por James Oakes, professor da City University of New York

“O problema com pessoas assim”, meu amigo disse sobre um colega historiador, “é que elas não mudaram de ideia sobre qualquer coisa em 30 anos”. Essa era uma das piores coisas que se poderia dizer sobre um acadêmico de boa reputação, eu pensei. Isso significava que a pessoa havia parado de pensar há eras. A mente tinha desligado. Essas pessoas tinham descoberto tudo na época em que defenderam suas dissertações. Isso era tão diferente da minha própria experiência, da maneira que fui ensinado, da maneira que eu sempre imaginei o trabalho do historiador. Nós não somente revisamos outros acadêmicos; nós revisamos a nós mesmos.

Em um seminário que assisti durante meu primeiro ano na pós-graduação, Kenneth Stampp nos leu um artigo intitulado algo como “Minha vida com Lincoln”. Eu não me lembro de muitos detalhes, mas apenas que ele delineou o processo pelo qual tinha, ao longo dos anos, mudado de opinião sobre o 16º presidente. Ele nunca se tornou um adorador de Lincoln, mas ao longo do tempo Stampp se tornou menos crítico; descobriu mais o que admirar. Alguns anos depois, enquanto eu lecionava em Princeton, li um livro que havia sido recentemente publicado por meu colega, Lawrence Stone, no qual ele argumentava que uma razão pela qual a aristocracia inglesa havia persistido por tanto tempo era que a burguesia emergente, ao invés de repudiar os valores aristocráticos, na verdade os abraçou. Chame isso de aristocratização da burguesia. Quando eu trombei com Stone no campus um dia, apontei que seu novo livro contradizia uma afirmação que ele havia feito em seu estudo anterior sobre a família, no qual ele argumentou que as noções burguesas de “parentesco afetivo” haviam triunfado em parte porque essas noções haviam sido apropriadas pela elite estabelecida tradicional. Isso era o mais familiar emburguesamento da aristocracia. Stone sorriu para mim e disse algo como “Bem, você não pode ficar falando só a mesma coisa.” Uma última história: em janeiro de 2012 eu estava em uma sessão no encontro anual da AHA em Chicago celebrando a carreira de Jim McPherson, e em sua fala ele explicou que quando começou a escrever, lá nos anos de 1960, ele havia absorvido a crítica abolicionista de Lincoln, mas que ao longo dos anos – como Stampp – havia mudado de ideia e passado a admirar Lincoln por qualidades que os abolicionistas nem sempre apreciavam. Stampp, Stone e McPherson foram todos influências importantes para mim, então dificilmente é surpreendente que em meu próprio ensino na pós-graduação eu me pegue de vez em quando apontando com desalento para esse ou aquele historiador cujo último livro sugere, infelizmente, aquilo que ele já vinha dizendo por décadas.

Não estou advogando pelas modas. Ao contrário, sempre tive um certo orgulho teimoso em resistir a tendências populares. Eu me tornei cético das afirmativas crescentemente envaidecidas feitas em prol da “cultura” quase tão cedo quanto os historiadores haviam feito sua famosa virada. Li respeitosamente Foucault e Bourdieu, Butler e Jameson. Eu até ensinei sobre eles. Mas no fim achava Marx e Weber mais úteis ao meu trabalho – embora tenha de confessar que achei Rodney Hilton e Perry Anderson ainda mais úteis. Absorvi todas as denúncias de história consensual, mas elas pouco diminuíram minha admiração por uma geração de historiadores do pós-guerra que incluía não apenas Richard Hofstader e Louis Hartz – que, afinal, lamentaram o consenso liberal – mas também a extraordinária escola de neoprogressistas que incluía não apenas Stampp, mas também C. Vann Woordward, Marrill Jensen e Arthur Schlesinger Jr., escrevendo no seu melhor sobre as épocas de Jackson e Roosevelt. Também li muito Carl Bridenbaugh para acreditar que escrever história social era uma marca de sofisticação, muito menos de radicalismo. E, de qualquer maneira, a história social produzida depois de 1965 foi mesmo mais sofisticada que a história social produzida antes por Oscar Handlin ou Bernard Bailyn? A história dos afro-americanos ultrapassou os níveis definidos por John Hope Franklin e Benjamin Quarles na geração após a Segunda Guerra? Frank Tannenbaum, C. L. R. James, Eric Williams ou Stanley Elkins precisaram ser ensinados contra o tratamento da escravidão em termos paroquiais? Recentemente, enquanto eu lia Age of Fracture, livro de Daniel Rodgers sobre a história intelectual do último quarto do século XX, senti como se estivesse folheando o catálogo de todas as tendências a que passei a maior parte da minha vida resistindo. Sempre fui cético sobre a suposição Whiggista de nossa profissão de que o saber mais novo é melhor, mais “complexo” do que os que vinham antes. Às vezes ele é, e às vezes não. Nós certamente compreendemos a importância da ideologia racial, gênero e sexualidade melhor do que nossos antecessores intelectuais, mas não sei se entendemos melhor a escravidão do que Moses Finley, e estou aturdido pelo fato de que historiadores estadunidenses recentes têm sido de tão pouca ajuda para explicar como o capitalismo financeiro funciona.

Mas se não estou advogando os modismos, também não tenho a menor vontade de fincar os pés no chão e me agarrar ao conhecimento passado, especialmente o meu próprio. Ao longo dos anos eu mudei de ideia sobre muitas coisas; eu até gosto da experiência de perceber que algo que eu acreditei ser verdade parece não o ser mais. Esse processo de auto-revisão começou anos atrás, logo após a publicação do meu primeiro livro, quando rapidamente concluí que “culpa” era uma estrutura lamentavelmente inadequada para entender a religião dos donos sulistas de escravos. Em meados dos anos de 1980 me tornei mais sensível aos limites da cultura terapêutica da qual a tese da “culpa” havia originalmente emergido. Mais tarde ficou claro que havia muito mais coisas acontecendo no debate da história teológica da escravidão do que eu sabia à época. Havia um problema diferente em minha apresentação dos donos de escravos como “capitalistas”. Ela era baseada em uma leitura muito cuidadosa de muitas fontes para ser empiricamente vulnerável, e há muito pouco em minha atual descrição que eu mudaria hoje. Mas o adjetivo problemático “capitalista” era um tiro falho. Ele encobria uma distinção crucial entre a era do “capitalismo mercantilista” ao longo da qual emergiram os donos de escravos do Novo Mundo, e um estágio posterior do desenvolvimento capitalista baseado no trabalho livre e crescentemente assalariado. Ainda parece óbvio para mim que a escravidão sulista foi uma escravidão racial e que o racismo era indispensável à ideologia pró-escravista, mas sou mais cético do que fui um dia sobre o que chamo de história consensual racial – a tendência a ver o racismo como o “pecado original” da nação, um universal histórico transcendente, a explicação muito fácil e sempre disponível para o que quer que queiramos explicar. De maneira parecida, ainda começo da premissa de que uma economia escravista operava de maneiras que eram fundamentalmente diferentes das obras de uma sociedade baseada no trabalho livre, mas estou mais inclinado a me distanciar da crítica clássica das economias escravistas – de que elas eram essencialmente e estruturalmente fracas. Mais recentemente, admiti que Frederick Douglass poderia servir como uma voz representativa do movimento abolicionista – e por certos motivos penso que a suposição ainda vale. Mas a versão do constitucionalismo anti-escravista de Douglass agora me parece não representativa de maneiras relevantes. Como a maioria dos historiadores, eu sempre presumi que a trajetória da Guerra Civil mudou ao longo do tempo, de uma luta pela restauração da União a uma guerra contra a escravidão. Agora me parece claro que para Lincoln e os Republicanos a guerra sempre foi sobre ambos – que eles nunca separaram “liberdade” da “União” da maneira que historiadores quase sempre fazem.

Dito isso, também mantive algumas das premissas básicas que peguei em Berkeley há muito tempo. Fui fortemente influenciado pelas críticas da história social despolitizada publicadas nos anos de 1970 por Eugene Genovese e Tony Judt. Sem sequer perceber à época, eu comecei a acreditar que a espinha dorsal da narrativa da história humana corre junto da intersecção entre política e estrutura social conforme esta se move pelo tempo. Ainda acredito nisso, embora eu goste de pensar que poderia ser persuadido do contrário.

E assim as coisas vão. Eu tento não ser apegado demais a qualquer coisa que publique. A escrita expressa meu pensamento à época da publicação. Algumas vezes tudo o que é preciso são evidências, evidências novas ou novamente persuasivas, para me fazer mudar de ideia. Outras vezes percebo as premissas dúbias que assumi inconscientemente, e então me afasto. Ocasionalmente eu me impressiono pelo que Jürgen Habermas chama de “a força sem força do melhor argumento”. E há sempre algo novo a aprender. Quanto mais documentos eu leio, mais nuances tendo a perceber no próximo a ser lido. É como aprender uma linguagem que eu nem sabia que existia. É difícil de entender, mas também é divertido; sério, mas prazeroso. É por isso que amo o que faço. Porque todo dia do passado parece um pouquinho diferente para mim do que parecia antes.

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