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Sobre escrita acadêmica

Recentemente foi muito compartilhado esse curso de escrita para artigos científicos por um professor do Instituto de Física de São Carlos, da USP. Composto de 8 vídeos, cada qual com aproximadamente 30 minutos, o curso visa abordar a composição dos papers destinados à publicação científica. Trata-se de material precioso, principalmente para quem nunca teve 15 minutos de conversa com seus orientadores sobre estruturação textual, mas carece de dois problemas.

O primeiro problema se refere à especificidade de área. Vindo da área das ciências exatas, não seria justo cobrar do prof. Zucolotto que domine as especificidades de todas as outras áreas, mas o título ambicioso (“Curso de escrita científica”) acaba por atrair pesquisadores que não são das exatas. Se levarmos em conta outro professor relativamente famoso por seus materiais sobre “escrita científica”, prof. Gilson Volpato, veremos que esse é um grande problema dessa área que engatinha em terras brasileiras, que é a de ensino de redação/escrita acadêmica. Em centros estrangeiros, onde a preocupação nasceu algum tempo antes, já temos cursos capazes de dar conta das especificidades das áreas temáticas de pesquisa – vide os materiais do Thompson Writing Program, da Duke University, e o Purdue Online Writing Lab, da Purdue University. Neste sentido, é importante que autores das ciências humanas e sociais, por exemplo, complementem as informações do prof. Zucolotto com material específico para suas áreas – que pode até mesmo trazer indicações que contradizem o primeiro curso.

O segundo se refere à ideia de “artigo de alto impacto” – ideia que vem sendo contestada na Europa e nos Estados Unidos, vide a San Francisco Declaration on Research Assessment, recentemente divulgada até mesmo no SciELO. O fator de impacto das revistas nas quais os artigos são publicados não podem ser usados como referência de qualidade de cada artigo individualmente ou do pesquisador – seja positiva ou negativamente. A discussão dos estudos em publicação acadêmica apontam na direção de que nada substitui a revisão por pares pós-publicação (post-publishing peer-review) – que nada tem a ver com a seleção para publicação, mas sim a relevância da peça em si mesma. A bibliografia sobre o tema é longa, mas uma breve consulta a periódicos como o Journal of Scholarly Publishing já dá uma boa ideia do cenário. Em suma, embora a preocupação com a escrita seja louvável – haja vista a quantidade de artigos mal escritos publicados mesmo em língua portuguesa – um artigo relevante presume: (1) uma pesquisa considerada relevante, (2) resultados considerados relevantes e (3) boa composição escrita.

A iniciativa do professor da USP é muito interessante, mas ainda mostra o quanto estamos engatinhando em uma discussão que merece um tratamento muito mais complexo. Neste sentido, experiências como a dos professores William Marr e Emmy Misser, da Wilfrid Laurier University, no Canadá, que introduziram tutores especificamente para cuidar da escrita de seus alunos.

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