Marcado: historiografia

Diário de Pesquisa, 7: Coletas (UFG)

Entre 23 e 25 de Janeiro, estive em Goiânia para a coleta das dissertações da Universidade Federal de Goiás. O acervo consta na coleção especial da Biblioteca Central, que fica no Campus II – Samambaia.

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Biblioteca Central da UFG

A coleção especial requer o auxílio de um funcionário da seção. Então dei minha lista, já com os códigos de chamada dos trabalhos, e fui trabalhando conforme o funcionário trazia os exemplares. Não é o meu modelo favorito de trabalho, mas também não reclamo de não ter que carregar peso.

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Seção Especial da BC

A pós-graduação em História na UFG começou já em 1972 com um convênio com a USP. As primeiras dissertações foram defendidas em 1974, e as primeiras gerações de titulados foram diretamente orientados por professores de São Paulo – com destaque para Laima Mesgravis, que concentrou boa parte das orientações.

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Pilha de trabalhos na seção especial

Havia catalogado previamente 138 dissertações entre 1974 e 2000; dessas, 18 não constavam sequer no catálogo da biblioteca, e 12 constavam, mas não foram encontradas no acervo. Essa proporção de trabalhos desaparecidos (30 trabalhos, aprox. 22% do total) é consistente com a taxa da UFPE (18% desaparecidos), mas ambas estão um pouco acima do que mensurei no restante das instituições (em geral, em torno de 2 a 5% desaparecidos). É difícil precisar os motivos desses extravios de trabalhos sem consultar os documentos de depósito dos trabalhos. O estado de preservação também era preocupante, como já observei antes para a PUC-SP e para a UFPE. A UFG tem 34 dos 138 trabalhos para o período digitalizados, mas até onde sei não há projeto em andamento para a digitalização do restante – e ainda que houvesse, 22% dos trabalhos já estão desaparecidos de qualquer forma.

A próxima viagem ainda está indefinida no momento, mas gostaria de finalizar o trabalho na PUC-SP e aproveitar a viagem para consultar o fundo PUC no CEDIC/PUC, onde estão algumas teses defendidas no antigo regime de cátedras, e onde Maria de Lourdes Mônaco Janotti e Márcia Mansor D’Aléssio encontraram alguns trabalhos de história pelo antigo Instituto Sedes Sapientiae.

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Fórum de Teoria e História da Historiografia, Recife, Dezembro de 2018

Durante a primeira semana de Dezembro, além da coleta de materiais para o banco de dados, participei da edição 2018 do Fórum de Teoria e História da Historiografia, organizado pelos colegas Pablo Spindola e Wagner Geminiano dos Santos. Participei como proponente de um texto para discussão, e tive o privilégio de contar com dois comentadores bastante rigorosos e generosos – Pablo, já citado, e Evandro Santos, professor de teoria na UFRN. Na ocasião, propus para debate o texto “Confiança e Autoridade Epistêmica: sobre as condições de possibilidade da historiografia moderna“.

O texto é, na realidade, uma espécie de leitura comentada de dois textos de John Hardwig sobre o papel fundamental da confiança na produção contemporânea de conhecimento. E sendo Hardwig um filósofo da tradição analítica, foi bastante interessante ouvir as observações, objeções e sugestões dos comentadores. Isso porque o diálogo com a filosofia analítica na teoria da história (aqui no Brasil) é extremamente limitado e enviesado, e há muitas divergências conceituais profundas, que precisam ser melhor delimitadas. Pablo e Evandro foram excelentes em suas falas, e generosos o suficiente para me auxiliar na tarefa de definir eixos importantes para estabelecer essa ponte com a filosofia analítica. As professoras Maria da Glória de Oliveira e Rebeca Gontijo também participaram do debate e fizeram observações muito pertinentes. (Uma menção também ao professor Temístocles Cezar, que durante o evento em Guarulhos, que já mencionei anteriormente, também me fez sugestões valiosas).

O evento ainda contou com outra sessão de texto comentado (do colega Diego Fernandes, doutorando na UFRGS) e algumas mesas excelentes em torno do tema central do evento, que era “Desafios Contemporâneos à Autoridade Pública do Historiador”. No geral, foram três dias de debates muito profícuos e muito aprendizado.

Pós-Escrito sobre a Área de Teoria no Brasil

Já conversei com vários colegas (incluindo Pablo e Valdei, que acho que compartilham de algumas dessas opiniões) sobre a percepção que tenho de a área de Teoria da História no Brasil (se é que podemos dizer que ela existe de maneira tão blocada como as divisões do CNPq fazem crer) se caracteriza por alguns traços particulares: (1) é dominada por historiadores, na medida em que boa parte dos filósofos por aqui não tem grande interesse na filosofia da história; (2) está em trânsito entre uma agenda mais antiga, que chamo de teoria-metodologia, em que os temas de discussão são preferencialmente ligados aos conceitos operacionais do trabalho (por ex. representação social, de Chartier, experiência de classe, no Thompson, etc), para uma mais nova, mais efetivamente ligada à reflexão abstrata sobre as condições de funcionamento do discurso histórico – e aqui a oposição antigo/novo não pretende carregar um sentido de evolução, mas simplesmente de deslocamento cronológico e propriamente social-epistêmico; e, finalmente, (3) se contenta com a exegese de autores (majoritariamente europeus) e/ou o estabelecimento de ligações entre eles, sem uma preocupação mais profunda com problemas teóricos/filosóficos propriamente ditos. Tenho a impressão de que essa situação se deve em muito à constituição do campo no Brasil, coisa que tenho explorado em um artigo em desenvolvimento sobre o surgimento das disciplinas de “Introdução aos Estudos Históricos” nos cursos de História em meados do século XX.

Diário de Pesquisa, 6: Coletas II

Entre os dias 3 e 7 de Dezembro, estive em Recife para fazer a coleta das teses e dissertações do Programa de Pós-Graduação em História da UFPE e participar do Fórum de Teoria e História da Historiografia, a convite dos amigos Pablo Spindola e Wagner Geminiano dos Santos. Foram duas experiências fascinantes. Nesta postagem falo da coleta e, na próxima, do Fórum.

A coleta na UFPE teve seus percalços. A maior parte dos trabalhos está catalogada no Memorial Denis Bernardes, parte da Biblioteca Central. Os bibliotecários e estagiários foram muito prestativos e receptivos, e me auxiliaram em todo o processo. Sou profundamente grato. No entanto, alguns trabalhos não constam na coleção do Memorial e estão espalhados por outros lugares – aos quais nem todos eu pude ir. Dei uma rápida espiadela no acervo da Biblioteca do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), mas os bibliotecários de lá me avisaram que a coleção estava incompleta e desorganizada. De fato estava, mas ainda consegui localizar mais alguns itens. Finalmente, no último dia, descobri que o PPGH tem uma biblioteca própria, mas já era tarde. Voltei para casa com algumas lacunas. Pelos meus cômputos, 5% dos trabalhos não estavam sequer registrados no sistema integrado de bibliotecas (que usa o sistema Pergamum) e 12% estavam registrados mas não foram encontrados. Resta saber se vale a pena uma nova viagem só para procurar esse material, considerando que 83% dos 132 trabalhos foram encontrados – me parece uma boa margem. Até porque é possível caçar certas informações nas profundezas da internet…

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Pilha de trabalhos no Memorial Denis Bernardes

Fico muito insatisfeito com não ter verbas para oferecer a digitalização completa desses materiais. Assim como na PUC-SP, o tempo vai cobrando seu pedágio aos materiais, e muitos estão profundamente desgastados. Alguns têm páginas faltando, vários estão com a encadernação danificada, com a impressão desaparecendo… Mais alguns anos e muito do material que ainda não se perdeu, estará ilegível. A ação do tempo independe da boa vontade e do preparo dos bibliotecários, que fazem o que podem com a estrutura que lhes é oferecida pela instituição. Não fosse o bom trabalho desses funcionários, o estrago seria muitas vezes maior. Poucas instituições contam ou contaram com projetos robustos de digitalização – no caso dos PPGHs, para ficar em quatro exemplos maiores, Unicamp e UFPR digitalizaram quase todos os trabalhos (consegui localizar algumas lacunas pontuais em ambas); UFBA tem todas as dissertações relevantes para o meu banco (o PPGH começa efetivamente em 1990, com as primeiras dissertações defendidas em 1992; o banco termina em 2000), e ainda algumas do período anterior, quando havia uma área de História no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais; PUC-RJ digitalizou boa parte, ou quase todo o acervo, mas requer assinatura para acesso.

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O trabalho só foi possível graças à equipe prestativa e atenciosa do Memorial.

A próxima viagem está marcada para o fim de Janeiro, quando coletarei os trabalhos da UFG, em Goiânia.

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Diário de Pesquisa, 5: Coletas

Desde a última atualização, o projeto teve alguns avanços. O principal é que a Fapesp finalmente aprovou o financiamento, o que agora me disponibiliza muito mais verba para elaborar o banco de dados.

Ao longo desta semana, aproveitei o convite do prof. Fábio Franzini (Unifesp) para apresentar um texto no 3o Colóquio do Observatório de História e estendi minha estada até ontem. Com isso, comecei o trabalho de coleta das folhas de rosto das teses e dissertações. Esse material servirá mais para a checagem dos metadados mais importantes (autoria, orientação, título, etc.), dando um lastro mais seguro aos dados do banco. Comecei pela PUC-SP, que ficava mais próxima de onde eu estava. Ao longo de dois dias (quarta e quinta-feira) consegui registrar 254 teses e dissertações entre 1977 e 1997. Por questões de tempo (retornei para casa hoje cedinho), só poderei completar o registro em uma próxima viagem (faltam os trabalhos de 1998 a 2000).

 

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Pilha de livros da tarde de quarta-feira – os trabalhos até os anos 80.

Essa experiência já me permitiu enxergar algumas estratégias que serão necessárias: em primeiro lugar, preciso de uma daquelas baterias portáteis para o celular, porque em que estou usando o app CamScanner e ele devora a carga do aparelho; segundo, não vou precisar de academia (o bibliotecário também não vai precisar), porque carregar aquelas pilhas de trabalhos já queimou umas boas calorias; por último, segurar os livros abertos enquanto tira a foto dá mais trabalho que eu me lembrava.

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Pilha de quinta-feira à tarde – já nos anos 90.

No mais, fiquei bem satisfeito com o ritmo, e acho que quando a coisa “engatar” será tudo bem rápido. A PUC-SP tem uma organização física boa e o sistema da biblioteca funciona bem (já havia registrado todos os códigos de todas as teses daqui de casa mesmo, através da internet). Tive a oportunidade de falar rapidamente com o bibliotecário – morrendo de vergonha pela pilha de livros na mesa de retornos – e ele foi muito simpático e prestativo.

Em Dezembro, aproveitando mais um convite, farei a coleta da UFPE, em Recife. Espero que tudo corra tão bem como foi agora.

“Historians in the Archive: Changing Historiographical Practices in the Nineteenth Century” – novo número da History of the Human Sciences

Em seu número de Outubro de 2013, o periódico History of the Human Sciences traz um dossiê editado por Pieter Huistra, Herman Paul e Jo Tollebeek que pensa o papel dos arquivos na constituição de determinadas práticas historiográficas no século XIX – com estudos sobre casos na Europa e fora dela. Segundo os editores, os artigos tentam responder quatro perguntas específicas:

  1. Por que historiadores do século XIX crescentemente enfatizaram a importância da pesquisa de arquivos (Kasper Risbjerg Eskildsen)?
  2. Que tipo de desafios e obstáculos os historiadores encontraram quando tentaram basear seus conhecimentos [scholarship] em pesquisas de arquivo (Philipp Müller, Pieter Huistra)?
  3. Que tipo de aprovação e crítica a virada dos arquivos [archival turn] suscitou entre historiadores, especialmente em relação às demandas que [ela] fez sobre os traços característicos do historiador (Herman Paul)?
  4. Que tipo de apropriação, adaptação e/ou rejeição dos conhecimentos históricos baseados em arquivos na Europa pode ser observado em regiões não Europeias do mundo (Charles Jeurgens, Margaret Mehl) e em campos de pesquisa relacionados, como os estudos orientais (Henning Trüper)? (p. 5-6)

Trata-se, enfim, de um número bastante rico aos interessados na história da historiografia do século XIX.

Artigos:

Fórum da AHR: “Viradas” historiográficas em perspectiva crítica

Em Junho de 2012, a American Historical Review publicou um dossiê dedicado a pensar as recentes “viradas” pelas quais a historiografia (principalmente a norte-americana) passou. Tratam-se de textos interessantes aos historiadores que tentam entender os processos de questionamento mais ou menos radical pelos quais a historiografia ocidental passou desde os anos 60. Destaco particularmente o texto de Gary Wilder, do qual tiro o seguinte trecho para apetecer os leitores:

No campo da história, estamos agora testemunhando o retorno extemporâneo de elementos de “realismo doutrinário” que Hayden White identificou com o legado de Leopold von Ranke: evidência documental, particularismo descritivo e “explicação pela narração” a serviço de uma história reconstrutiva do “que realmente aconteceu”. O mais impressionante sobre esse desenvolvimento é que o retorno ao realismo descritivo e ao objetivismo arquivístico, na verdade, seguiu o que deveriam ser rupturas epistemológicas iniciadas pelas tão faladas viradas cultural e linguística na historiografia. […] podemos nos perguntar se existe alguma conexão entre o entrincheiramento atual e as viradas em si. […] A real significância histórica das viradas cultural e linguística podem estar, então, menos nas instâncias específicas de inovação historiográfica às quais elas deveriam se referir do que em suas persistentes e perniciosas vidas posteriores.

Em retrospecto, podemos ver que as aberturas analíticas que foram criadas pelas viradas cultural e linguística foram bloqueadas através de um processo de domesticação no qual novas óticas foram transformadas em tópicos de pesquisa rotineiros que reafirmavam pressupostos historiográficos tradicionais. […] (WILDER, 2012, p. 723)

Os artigos estão atrás de paywall, mas podem ser acessados através do Portal de Periódicos da CAPES.

Artigos:

François Hartog fala sobre seus trabalhos e sobre historiografia

Divulgo aqui uma entrevista concedida pelo prof. François Hartog (diretor de estudos na EHESS) e publicada na revista História da Historiografia no ano passado (2012). Trata-se de uma entrevista interessante a quem se interessa pelos temas abordados pelo historiador francês – que recentemente “emplacou” seu conceito de regimes de historicidade em terras brasileiras, numa leitura bastante interessante de Reinhart Koselleck. Desde os anos de 1980 o prof. Hartog se dedica a explorar os caminhos da historiografia antiga e moderna, sendo grande conhecedor da historiografia grega antiga e autor de obra relativamente vasta.

Gostaria de destacar um trecho que considero bastante interessante da fala do prof. Hartog:

4. Podemos retornar ao tema colocado sobre François Dosse e pensar que o trabalho de Dosse, Patrick Garcia (1958-…), Christian Delacroix (1950-…) era uma tentativa de dominar um campo de estudos sobre historiografia na França. O senhor não acredita que isso seja verdadeiro?

FH: Sim, trata-se justamente da questão se a historiografia é uma disciplina ou não. Houve a tentativa de Carbonell como ponto de partida, que publicou outrora na pequena coleção “Que sais je?” da Imprensa Universitária da França (Presses Universitaire de France), L’historiographie. Era a maneira de dizer: “isto existe”! E sua vocação era de ser uma disciplina ou, ao menos, uma subdisciplina. Todavia, por diferentes razões Carbonell saiu de cena e, de todo modo, sua maneira de agir não era tão interessante assim. Depois veio François Dosse, Patrick Garcia e Christian Delacroix, este trio que, à sua maneira, há alguns anos tenta constituir alguma coisa como um campo de historiografia. Isso começou com a revista Espaces temps, continuando em suas práticas docentes, e enfim com a edição publicada pela Gallimard, em dois volumes Historiographies: concepts et débats. É uma obra coletiva, com a ideia de que há um domínio e do qual eles são os fiadores e organizadores. Domínio bastante amplo e internacionalizado, considerando seu sumário.

Pessoalmente, eu mantenho certa distância disso tudo. Eu não acredito que a historiografia seja uma subdisciplina. E talvez seja preciso distinguir entre uma posição, eu diria, intelectual e necessidades institucionais. Talvez seja necessário que haja pessoas que cuidem desta dimensão institucional, para permitir o exercício de uma atividade intelectual. E talvez eu seja excessivamente indiferente a isto. Então, eu compreendo que se tenha esta atitude, mas não é um papel que tenho interesse em assumir, não é um papel que me convém. Não aprecio as fronteiras, nem os limites, nem as “atribuições de residência”, que seja na antiguidade ou na contemporaneidade, seja na literatura. Não concebo de outra maneira meu trabalho senão por este deslocamento. Não tenho, de forma alguma, a pretensão de dar isso como exemplo. Eu aceito mesmo que se possa estar em desacordo com isso. Acontece, finalmente, que sempre foi assim que trabalhei e que, dada a idade que tenho, é difícil que isso vá mudar.

Link para a entrevista: clique aqui.