Marcado: polêmica

Trecho de “Polêmicas, Política e Problematizações”, de Michel Foucault

No jogo sério de perguntas e respostas, no trabalho de elucidação recíproca, os direitos de cada pessoa são, em certo sentido, imanentes à discussão. Eles dependem apenas da situação de diálogo. Aquele que faz as perguntas está apenas exercendo o direito que lhe foi dado: de permanecer em dúvida, perceber uma contradição, pedir mais informações, enfatizar postulados diferentes, apontar raciocínios duvidosos, e por aí vai. Quanto àquele que responde às perguntas, ele também exerce um direito que não vai além da discussão em si; pela lógica de seu próprio discurso, ele está amarrado ao que disse antes, e por aceitar o diálogo ele está amarrado ao questionamento do outro. Perguntas e respostas dependem de um jogo – um jogo que é ao mesmo tempo prazeroso e difícil – no qual cada uma das duas partes procura  usar apenas os direitos dados a ela pelo outro e pela forma aceita do diálogo.

O polemista, por outro lado, procede investido de privilégios que ele possui antecipadamente e jamais concordará em questionar. Em princípio, ele possui direitos autorizando-o a declarar guerra e fazendo desse combate uma empreitada justa; a pessoa que ele confronta não é um parceiro em busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que está errado, que é perigoso, e cuja simples existência constitui uma ameaça. Para ele, então, o jogo não consiste em reconhecer essa pessoa como um sujeito que tem o direito de falar, mas sim em anulá-lo como interlocutor, privá-lo de qualquer diálogo possível; e seu objetivo final não será chegar o mais perto possível de uma difícil verdade, mas fazer triunfar a justa causa que ele vinha portando desde o início. O polemista se apóia em uma legitimidade da qual seu adversário está, por definição, privado.

(…)

Este texto é um texto marcante na minha trajetória pessoal. Parece-me que aqui Foucault estabelece parâmetros para o difícil jogo do debate e do diálogo – o que não significa em absoluto que ele mesmo tenha sempre seguido sua receita à risca. Em que pese a dificuldade de nos mantermos no terreno do diálogo sem escorregar para o papel do polemista, penso que essa abordagem do diálogo, como um jogo de perguntas e respostas, e, principalmente, como uma busca coletiva por uma resposta, é extremamente rica. Trata-se, enfim, de um objetivo que, se inalcançável, permite-nos ao menos uma referência em relação à qual nos posicionarmos.

Tradução livre minha do texto em inglês disponível em repositório aberto. Para o original, clique aqui. Este texto está traduzido na íntegra na coleção Ditos & Escritos – volume V, página 225.

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