Marcado: política do saber

“The History Manifesto”

Em Outubro de 2014 Jo Guldi e David Armitage, professores em Brown e Harvard, respectivamente, publicaram um manifesto em defesa do “retorno” à macro-história. Para eles, a história das longas durações seria a mais capaz de restabelecer a importância da historiografia na construção de políticas públicas, bem como de habilitar os historiadores a se posicionarem em debates contemporâneos, marcados pela visão curta e imediata dos fenômenos. O texto está disponível abertamente no site oficial do livro.

Entre muitas reações, o destaque fica por conta da American Historical Review, que conta com um uma crítica voraz de Deborah Cohen e Peter Mandler, professores na Northwestern University e em Cambridge, respectivamente. O texto abre com a seguinte passagem: “É provavelmente da natureza dos manifestos ter vistas curtas e ser um pouco autoritário: eles são os gritos de guerra que levam os soldados para a batalha. Por essa razão, a história é um assunto quase unicamente inadequado aos manifestos.” Os textos estão disponíveis em livre acesso no site da revista.

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Open-access, peer-review e a recente polêmica da revista Science

Numa peça publicada este mês na revista Science (“Quem tem medo da revisão por pares?“), um jornalista (que também é doutor em biologia) abriu fogo contra o que percebeu como um problema dos periódicos de acesso livre (open-access): “pouco ou nenhum escrutínio” do conteúdo dos artigos submetidos para publicação. O artigo expõe os resultados do experimento do jornalista-biólogo, indicando que mais da metade das submissões de um artigo falso e claramente problemático foram aceitas. Sendo a Science uma revista paga, não tardaram a aparecer respostas da comunidade de Acesso Livre indicando problemas metodológicos no experimento e acusações de que o texto (e toda a ideia da experiência) seria tendenciosa.

O experimento

John Bohannon, jornalista e Ph.D. em biologia, enviou 304 versões de um artigo falso ao longo de 10 meses para periódicos de acesso livre. Tal artigo versaria sobre “propriedades anticancerígenas de uma substância química extraída de um líquen”. Como muitos desses periódicos são propriedades de empresas privadas de publicação, é prática relativamente comum a cobrança de uma “taxa de publicação” – ao invés de o leitor pagar para ler, o autor arca com os custos. A partir daí, o autor investiga a constituição do que seriam, por um lado, maneiras de espoliar os cientistas ávidos por publicações em grande quantidade e, por outro, grande número de periódicos sem qualquer controle de qualidade. “Apenas 36 das 304 submissões geraram pareceres reconhecendo qualquer dos problemas científicos do artigo. E 16 desses artigos foram aceitos pelos editores apesar dos pareceres negativos.”

As respostas

Várias respostas surgiram logo em seguida da publicação do estudo (conforme já linkei anteriormente aqui). A maioria das críticas aponta para alguns problemas centrais de metodologia:

  • Bohannon não fez o mesmo experimento com publicações “tradicionais” (nas quais o leitor paga para ler o artigo), e portanto não deveria sugerir (como teria feito, segundo os críticos) que o baixo controle de qualidade estaria ligado diretamente ao acesso livre;
  • O autor teria escolhido periódicos de conhecida má reputação acadêmica, e a amostra seria majoritariamente composta de periódicos cujos editores e publicadores cuja identidade e autenticidade seria claramente duvidosa;
  • O autor teria focado no aspecto errado da crise que seus dados permitem visualizar – o problema não estaria nas políticas de acesso livre, mas no ciclo vicioso entre avaliações quantitativas de produção, proliferação de periódicos sem expressividade, relaxamento de políticas editoriais e de controle de qualidade, e consequente inflação dos índices quantitativos de publicação.

Algumas das respostas foram mais detalhistas que outras: cito em particular duas que se deram ao trabalho de pensar o que é o modelo de publicação de acesso livre – “A pegadinha da publicação de acesso livre: o que a revista Science entendeu errado“, no The Guardian, e “O que a Science – e o Cientista Gonzo – entenderam errado: acesso livre fará a pesquisa melhor“, de Curt Rice.

O Chronicle of Higher Education tentou fazer um breve balanço da discussão até o momento. A situação parece indicar que a maior parte das pessoas envolvidas na reflexão sobre publicação científica/acadêmica percebeu os problemas da peça na Science e sabe que a “crise” expressa por Bohannon é, na verdade, muito mais ampla – e envolve o próprio conceito de publicação científica e avaliação de resultados existente hoje.

E no Brasil?

No Brasil existe uma política bastante importante de incentivo à criação de periódicos acadêmicos pelos programas de pós-graduação em todas as áreas do conhecimento, e existe uma orientação expressa de que tais periódicos sejam de acesso livre – em um modelo que, diferentemente do modelo privado, não cobra nem de autores nem de leitores. Assim, pode parecer que essa polêmica não diz nada a nós. Mas essa é uma conclusão bastante equivocada.

Se de fato o problema exposto se refere (1) à lógica quantitativa de avaliação da pesquisa e (2) aos problemas do sistema de avaliação por pares tal como ele é feito hoje, então estamos diretamente implicados por essa crise. No primeiro ponto porque os indicadores da CAPES dão peso enorme à publicação em termos de quantidade de artigos – e o famoso QUALIS, que deveria marcar os periódicos por estratos que supostamente indicariam a qualidade do periódico, não só não atinge seu objetivo quanto não escapa da lógica quantitativa de avaliação. Quanto ao segundo ponto, a ampla maioria (para não dizer a totalidade) dos periódicos nacionais fundados e gerenciados por programas de pós-graduação em universidades públicas (mas também em algumas privadas) tem políticas de avaliação por pares.

É difícil discordar de que é preciso avaliar de alguma forma a produção dos pesquisadores – ainda mais em um país como o Brasil no qual a pesquisa é basicamente financiada com dinheiro público. Mas a discussão que atravessa os debates internacionais sobre avaliação científica é igualmente importante no Brasil: como elaborar esse tipo de avaliação? Se as análises quantitativas não são as mais adequadas, como elaborar uma análise que seja ao mesmo tempo qualitativa e possível de ser feita em um cenário de população acadêmica crescente? Ou, então, como elaborar uma avaliação que combine com justeza aspectos quantitativos e qualitativos? Considerando também que recentemente tem sido muito questionada a tal “internacionalização” das universidades brasileiras, será difícil escapar dessas perguntas nos próximos anos.

Trecho de “Polêmicas, Política e Problematizações”, de Michel Foucault

No jogo sério de perguntas e respostas, no trabalho de elucidação recíproca, os direitos de cada pessoa são, em certo sentido, imanentes à discussão. Eles dependem apenas da situação de diálogo. Aquele que faz as perguntas está apenas exercendo o direito que lhe foi dado: de permanecer em dúvida, perceber uma contradição, pedir mais informações, enfatizar postulados diferentes, apontar raciocínios duvidosos, e por aí vai. Quanto àquele que responde às perguntas, ele também exerce um direito que não vai além da discussão em si; pela lógica de seu próprio discurso, ele está amarrado ao que disse antes, e por aceitar o diálogo ele está amarrado ao questionamento do outro. Perguntas e respostas dependem de um jogo – um jogo que é ao mesmo tempo prazeroso e difícil – no qual cada uma das duas partes procura  usar apenas os direitos dados a ela pelo outro e pela forma aceita do diálogo.

O polemista, por outro lado, procede investido de privilégios que ele possui antecipadamente e jamais concordará em questionar. Em princípio, ele possui direitos autorizando-o a declarar guerra e fazendo desse combate uma empreitada justa; a pessoa que ele confronta não é um parceiro em busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que está errado, que é perigoso, e cuja simples existência constitui uma ameaça. Para ele, então, o jogo não consiste em reconhecer essa pessoa como um sujeito que tem o direito de falar, mas sim em anulá-lo como interlocutor, privá-lo de qualquer diálogo possível; e seu objetivo final não será chegar o mais perto possível de uma difícil verdade, mas fazer triunfar a justa causa que ele vinha portando desde o início. O polemista se apóia em uma legitimidade da qual seu adversário está, por definição, privado.

(…)

Este texto é um texto marcante na minha trajetória pessoal. Parece-me que aqui Foucault estabelece parâmetros para o difícil jogo do debate e do diálogo – o que não significa em absoluto que ele mesmo tenha sempre seguido sua receita à risca. Em que pese a dificuldade de nos mantermos no terreno do diálogo sem escorregar para o papel do polemista, penso que essa abordagem do diálogo, como um jogo de perguntas e respostas, e, principalmente, como uma busca coletiva por uma resposta, é extremamente rica. Trata-se, enfim, de um objetivo que, se inalcançável, permite-nos ao menos uma referência em relação à qual nos posicionarmos.

Tradução livre minha do texto em inglês disponível em repositório aberto. Para o original, clique aqui. Este texto está traduzido na íntegra na coleção Ditos & Escritos – volume V, página 225.

“O Lugar da Teoria-Metodologia na Cultura Histórica” de José Carlos Reis

Divulgo aqui um importante artigo de 2011, de autoria do prof. José Carlos Reis (UFMG), cujo título é bastante direto e deixa seu objetivo explícito: qual é o lugar da teoria da história e da metodologia da história em nossa prática profissional? Se grandes historiadores como Michel de Certeau já diziam que a “prática sem teoria desemboca necessariamente, mais dia menos dia, no dogmatismo de “valores eternos” ou na apologia de um “intemporal”.”, para outros, como Pierre Chaunu, apenas os “grandes mestres” deveriam operar o esforço reflexivo que as disciplinas da teoria e da metodologia implicam.

Cito, então, parte do último parágrafo do texto de José Carlos Reis, que me parece positivamente provocativo:

Está longe de mim a pretensão de encerrar a polêmica com essa simples comunicação e até admito que seja possível que esteja equivocado, que esteja defendendo uma posição superada, talvez eu seja já um “dinossauro historiográfico”, daqueles que propõem discussões que não interessam mais a este presente cultural pós-1989. Por isso, estou curioso e atento, quero saber o que pensam os jovens historiadores da era pós-1989 sobre o lugar da teoria-metodologia na cultura histórica como ensino e pesquisa.

Link para o artigo: clique aqui.

O valor das humanidades

Por James Grossman, professor do departamento de História da Universidade de Chicago e diretor executivo da American Historical Association.

“O sistema de educação superior precisa evoluir com a economia… As pessoas pagam impostos esperando que o bem público será servido no maior grau possível. Chamamos isso de retorno do investimento.”
Dale A. Brill, responsável pela força-tarefa do governador da Flórida para a educação superior

Uma força-tarefa “especial” recomendou ao governador da Flórida, Rick Scott, que as universidades públicas do estado adotem uma estrutura “estratégica” de instrução. “Estratégica” neste caso não implica o tipo de planejamento refletido que considera todos os aspectos da missão e do futuro de uma instituição. Ao invés disso, essas recomendações oferecem uma ideia muito limitada de estratégia, projetada, nas palavras do presidente do senado estadual, “para alinhar a educação superior às realidades e oportunidades da economia”.

Talvez mais prender do que alinhar. E prender bem apertado, porque mesmo no sentido financeiro mais limitado esse é um pensamento de curto-prazo que amarra o sistema de universidades públicas a um único aspecto do que deveria ser uma missão ampla.

Há duas questões aqui: se o interesse do estado em educação superior é tão puramente financeiro que o “retorno do investimento” só pode ser medido em dólares, centavos e taxas de emprego; e se, mesmo nessa estrutura limitada (e pobre de espírito), essa é de fato uma estratégia inteligente.

A resposta é não, para ambas, e estou orgulhoso de que um grupo de historiadores da Universidade da Flórida está encabeçando a oposição com uma petição online desafiando as recomendações.

Ambas as questões envolvem o conceito de valor. O que é o valor para as pessoas do estado da Flórida, não apenas da própria presença de instituições de ensino superior públicas, mas também da graduação de cada indivíduo dessas instituições? O que é que interessa ao pagador de impostos pagar por alguma parte das oportunidades melhoradas de alguém? O que é o “retorno público do investimento” para os gastos com educação pós-secundária?

Essas são grandes perguntas. Sem dúvida, é preciso apenas aceitar sua importância para reconhecer por que as recomendações dessa força-tarefa são tão mal direcionadas. O centro do alvo da força-tarefa é as ciências humanas. O governador Scott deixou isso claro em outros contextos (“É de vital interesse do estado ter mais antropólogos? Eu não acho”, ele satirizou) e sugeriu que os diplomas em humanidades são um luxo que não cabem em um mundo de escassez fiscal e competitividade global. Mas essas são justamente as questões que as ciências humanas discutem. Humanistas ensinam seus estudantes a investigar sobre a natureza do valor, por que importa considerar a época e o lugar particulares nos quais se atribuem valores, e (sim) como identificar e avaliar diferentes maneiras de medir tal valor.

Parece particularmente notável que o governador do estado da Flórida achasse difícil de apreciar o valor da educação além da limitada (se essencial) arena da criação de empregos e treinamento. Esse é um estado que se beneficiaria de conversas informadas e refletidas sobre a natureza da democracia, a base da participação em uma política democrática e a história das limitações dessa participação. Não sei se o estado da Flórida em particular precisa de mais antropólogos; mas estou com o presidente da National Endowment for the Humanities, Jim Leach, que sugeriu que ter gestores [policymakers] com mais conhecimento sobre a história e a cultura de certos países no Oriente Médio e na Ásia central poderia ter nos livrado de algumas guerras, bilhões de dólares e muitas vidas. Gestores que se graduaram nessas disciplinas “menos estratégicas” na faculdade, como história e antropologia.

Por ora, no entanto, vamos admitir o princípio da centralidade da praticidade fiscal das políticas de educação superior. Concordo que a educação universitária – ao menos em parte – pode servir a interesses de carreira individuais e mesmo o interesse do estado no desenvolvimento econômico. A maioria dos estudantes universitários (e seus pais, que frequentemente pagam a conta) não têm o luxo de excluir considerações financeiras de suas escolhas educacionais. De fato, o projeto “Tuning” da AHA é em parte orientado para aprimorar as habilidades de estudantes ingressantes e seus pais para apreciar o potencial de ganhos de um diploma em história; e para ajudar potenciais empregadores a compreender o “valor” que um graduado treinado no pensamento histórico traz ao local de trabalho.

Eu imagino, no entanto, que nem Brill, nem Scott, nem os membros da força-tarefa da Flórida têm a ínfima noção do que é esse “valor”. Nem o governador Walker, de Wisconsin, que parece pensar que essas são boas ideias que deveriam avançar para o norte. É possível que o diploma em história (ou em filosofia, inglês, ou mesmo a bête noir do governador Scott, antropologia) possa não preparar um estudante para seu primeiro emprego no setor privado (que é o terreno do governador Scott e de Brill, que dirige o braço de desenvolvimento de políticas e pesquisa da Câmara de Comércio da Flórida). É no segundo emprego – e no terceiro, e no quarto – que a educação em humanidades entra em jogo. Pergunte à maioria dos CEOs de grandes corporações, ou recrutadores atenciosos. Eu perguntei. Eles lhe dirão que a companhia pode ensinar um graduado bem educado qualquer coisa que ele precisem saber para fazer vários tipos de trabalho básico. Eles estão procurando por candidatos que queiram aprender e saibam como aprender, homens e mulheres educados que possam encontrar e filtrar informação, dar um sentido a ela e comunicar o que aprenderam. Em outras palavras, graduados em história têm tanto valor ao estado da Flórida quanto engenheiros mecânicos. E nós nem vamos começar a discutir como engenheiros mecânicos podem se beneficiar de dividirem dormitórios com graduados em história (e vice versa, obviamente).

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Link para o texto original, em inglês.

Breve comentário: esse é o segundo texto que traduzo de importantes historiadores norte-americanos – estadunidenses, mais precisamente – a respeito dos recentes problemas que as humanidades vêm enfrentando por lá. Algum leitor desavisado, ou politicamente mal orientado, pode pensar que estamos muito longe de tudo isso, que nossa realidade, embora difícil, lida com problemas completamente diferentes… E esse leitor estaria parcialmente correto. Parcialmente porque as ciências humanas enfrentam no Brasil a mesma escassez de recursos que vem sofrendo em outros países – escassez justificada pelos mesmos motivos: os investimentos seriam destinados a áreas mais “estratégicas”, mais “vitais” para os interesses do país. Vide a discussão em torno do programa Ciência Sem Fronteiras – nome irônico para um programa que segrega os saberes “mais relevantes” dos “menos estratégicos”.