Marcado: utilitarismo

O valor das humanidades

Por James Grossman, professor do departamento de História da Universidade de Chicago e diretor executivo da American Historical Association.

“O sistema de educação superior precisa evoluir com a economia… As pessoas pagam impostos esperando que o bem público será servido no maior grau possível. Chamamos isso de retorno do investimento.”
Dale A. Brill, responsável pela força-tarefa do governador da Flórida para a educação superior

Uma força-tarefa “especial” recomendou ao governador da Flórida, Rick Scott, que as universidades públicas do estado adotem uma estrutura “estratégica” de instrução. “Estratégica” neste caso não implica o tipo de planejamento refletido que considera todos os aspectos da missão e do futuro de uma instituição. Ao invés disso, essas recomendações oferecem uma ideia muito limitada de estratégia, projetada, nas palavras do presidente do senado estadual, “para alinhar a educação superior às realidades e oportunidades da economia”.

Talvez mais prender do que alinhar. E prender bem apertado, porque mesmo no sentido financeiro mais limitado esse é um pensamento de curto-prazo que amarra o sistema de universidades públicas a um único aspecto do que deveria ser uma missão ampla.

Há duas questões aqui: se o interesse do estado em educação superior é tão puramente financeiro que o “retorno do investimento” só pode ser medido em dólares, centavos e taxas de emprego; e se, mesmo nessa estrutura limitada (e pobre de espírito), essa é de fato uma estratégia inteligente.

A resposta é não, para ambas, e estou orgulhoso de que um grupo de historiadores da Universidade da Flórida está encabeçando a oposição com uma petição online desafiando as recomendações.

Ambas as questões envolvem o conceito de valor. O que é o valor para as pessoas do estado da Flórida, não apenas da própria presença de instituições de ensino superior públicas, mas também da graduação de cada indivíduo dessas instituições? O que é que interessa ao pagador de impostos pagar por alguma parte das oportunidades melhoradas de alguém? O que é o “retorno público do investimento” para os gastos com educação pós-secundária?

Essas são grandes perguntas. Sem dúvida, é preciso apenas aceitar sua importância para reconhecer por que as recomendações dessa força-tarefa são tão mal direcionadas. O centro do alvo da força-tarefa é as ciências humanas. O governador Scott deixou isso claro em outros contextos (“É de vital interesse do estado ter mais antropólogos? Eu não acho”, ele satirizou) e sugeriu que os diplomas em humanidades são um luxo que não cabem em um mundo de escassez fiscal e competitividade global. Mas essas são justamente as questões que as ciências humanas discutem. Humanistas ensinam seus estudantes a investigar sobre a natureza do valor, por que importa considerar a época e o lugar particulares nos quais se atribuem valores, e (sim) como identificar e avaliar diferentes maneiras de medir tal valor.

Parece particularmente notável que o governador do estado da Flórida achasse difícil de apreciar o valor da educação além da limitada (se essencial) arena da criação de empregos e treinamento. Esse é um estado que se beneficiaria de conversas informadas e refletidas sobre a natureza da democracia, a base da participação em uma política democrática e a história das limitações dessa participação. Não sei se o estado da Flórida em particular precisa de mais antropólogos; mas estou com o presidente da National Endowment for the Humanities, Jim Leach, que sugeriu que ter gestores [policymakers] com mais conhecimento sobre a história e a cultura de certos países no Oriente Médio e na Ásia central poderia ter nos livrado de algumas guerras, bilhões de dólares e muitas vidas. Gestores que se graduaram nessas disciplinas “menos estratégicas” na faculdade, como história e antropologia.

Por ora, no entanto, vamos admitir o princípio da centralidade da praticidade fiscal das políticas de educação superior. Concordo que a educação universitária – ao menos em parte – pode servir a interesses de carreira individuais e mesmo o interesse do estado no desenvolvimento econômico. A maioria dos estudantes universitários (e seus pais, que frequentemente pagam a conta) não têm o luxo de excluir considerações financeiras de suas escolhas educacionais. De fato, o projeto “Tuning” da AHA é em parte orientado para aprimorar as habilidades de estudantes ingressantes e seus pais para apreciar o potencial de ganhos de um diploma em história; e para ajudar potenciais empregadores a compreender o “valor” que um graduado treinado no pensamento histórico traz ao local de trabalho.

Eu imagino, no entanto, que nem Brill, nem Scott, nem os membros da força-tarefa da Flórida têm a ínfima noção do que é esse “valor”. Nem o governador Walker, de Wisconsin, que parece pensar que essas são boas ideias que deveriam avançar para o norte. É possível que o diploma em história (ou em filosofia, inglês, ou mesmo a bête noir do governador Scott, antropologia) possa não preparar um estudante para seu primeiro emprego no setor privado (que é o terreno do governador Scott e de Brill, que dirige o braço de desenvolvimento de políticas e pesquisa da Câmara de Comércio da Flórida). É no segundo emprego – e no terceiro, e no quarto – que a educação em humanidades entra em jogo. Pergunte à maioria dos CEOs de grandes corporações, ou recrutadores atenciosos. Eu perguntei. Eles lhe dirão que a companhia pode ensinar um graduado bem educado qualquer coisa que ele precisem saber para fazer vários tipos de trabalho básico. Eles estão procurando por candidatos que queiram aprender e saibam como aprender, homens e mulheres educados que possam encontrar e filtrar informação, dar um sentido a ela e comunicar o que aprenderam. Em outras palavras, graduados em história têm tanto valor ao estado da Flórida quanto engenheiros mecânicos. E nós nem vamos começar a discutir como engenheiros mecânicos podem se beneficiar de dividirem dormitórios com graduados em história (e vice versa, obviamente).

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Link para o texto original, em inglês.

Breve comentário: esse é o segundo texto que traduzo de importantes historiadores norte-americanos – estadunidenses, mais precisamente – a respeito dos recentes problemas que as humanidades vêm enfrentando por lá. Algum leitor desavisado, ou politicamente mal orientado, pode pensar que estamos muito longe de tudo isso, que nossa realidade, embora difícil, lida com problemas completamente diferentes… E esse leitor estaria parcialmente correto. Parcialmente porque as ciências humanas enfrentam no Brasil a mesma escassez de recursos que vem sofrendo em outros países – escassez justificada pelos mesmos motivos: os investimentos seriam destinados a áreas mais “estratégicas”, mais “vitais” para os interesses do país. Vide a discussão em torno do programa Ciência Sem Fronteiras – nome irônico para um programa que segrega os saberes “mais relevantes” dos “menos estratégicos”.

Slavoj Zizek sobre o papel das universidades

Tradução de trecho do vídeo:

A Europa está regredindo terrivelmente nos últimos anos. Um sinal é essa – eles chamam assim porque foi concluído na cidade – Reforma de Bolonha das Universidades [Bologna University Reform]. E a ideia é uma muito brutal: universidades, eles dizem, e é como se eu estivesse ouvindo velhos comunistas, universidades não deveriam viver em suas torres de marfim, elas deveriam servir às necessidades de pessoas reais – o que significa servir às necessidades de grandes companhias e governos. Em outras palavras, a ideia é transformar as universidades em fábricas produzindo experts – conhecimento especializado. Mas eu digo que é precisamente isso que as universidades não deveriam ser. Universidades deveriam ser precisamente torres de marfim, se por isso se entender algo como “você está fazendo algo que não sabe para que vai servir”… Todas as grandes coisas acontecem dessa maneira.

Por que as humanidades?

Por Martin Jay, professor do departamento de história da UC-Berkeley

O relatório da Academia Americana de Artes e Ciências sobre o estado das humanidades e ciências sociais, “The Heart of the Matter“, soa como um lamento familiar, que reverberou ao menos desde os anos de 1960. O boom vivido no pós-guerra, que ergueu muitas empreitadas tradicionais e lançou várias outras novas, foi seguido de uma lenta erosão da confiança no valor e na missão do que não podia ser medido diretamente em termos instrumentais ou monetários. Com o cenário da diminuição dos prospectos de emprego no instável período posterior à Grande Recessão, essa erosão levou ao declínio radical de matrículas e à exaustão do financiamento para muitos programas antes robustos. Como resultado, pareceu imperativo a alguns “justificar” [“make a case”] as humanidades e ciências sociais, divulgando as funções benéficas delas em nossa sociedade.

Por falta de espaço para tratar dessa questão para ambas, permitam-me focar apenas nas humanidades, das quais o valor pode ser menos auto-evidente em nosso contexto atual. Alguns gostariam de nos fazer acreditar – de maneira errada, para mim – que os professores das humanidades são os próprios responsáveis pela queda nas matrículas em suas disciplinas por desafiarem e revisarem o anteriormente aceito e altamente restritivo cânone de “grandes obras” e “grandes autores”. Eles não apenas redescobriram e incluíram obras de mulheres e minorias raciais nos seus cursos mas também desenvolveram novos métodos interpretativos e alternativas teóricas controversas. Aqueles que se opunham a tais desenvolvimentos diziam que os estudantes estavam ignorando os clássicos, e acusaram os inovadores de desvalorizarem as grandes obras ao dar muita atenção aos seus contextos históricos ou ao exporem sua cumplicidade com hierarquias prevalentes de poder e privilégio. Essa disputa interna, que foi mais acirrada nos anos de 1980, deixou uma suspeita entre muitos de fora da academia de que as humanidades haviam abandonado seus papéis elevados de guardiães de nossa herança cultural e transmissores de nossos valores fundamentais.

Seria questionável, no entanto, relacionar as quedas nas matrículas de hoje com o crescimento da última geração, pois durante o período das discordâncias vociferantes nas humanidades grandes números de estudantes se graduaram em departamentos voltados à literatura, história da arte e outros fenômenos culturais. Apesar da reprovação de seus críticos, as humanidades emergiram de seus debates internos em uma posição intelectual muito mais robusta do que tinha antes. Ao invés de se contentarem em dar um verniz de literacia cultural para poucos privilegiados ou afirmarem de maneira presunçosa a superioridade das tradições recebidas, elas se tornaram mais reflexivas sobre seu papel na sociedade, mais insistentes em reconhecer o lado sombrio do elitismo cultural e mais determinadas a desnudar os dispositivos que a cultura usa para consolar e mistificar. Não mais se esforçando para revelar personalidades “bem acabadas”, elas aprenderam a criá-las [to nurture] mais irregulares e inquietas, com a habilidade de fazer perguntas difíceis e desprezar respostas fáceis. Com o crítico literário alemão Walter Benjamin, elas vieram a reconhecer a verdade perturbante de que “não há documento de cultura que não seja também um documento de barbárie”. E ainda ao mesmo tempo elas também conseguiram preservar a maravilha, a reverência e a admiração que as humanidades sempre sentiram em relação aos objetos de sua pesquisa. Elas desenvolveram o que pode se chamar de “amor difícil” [“tough love”] com as culturas das quais permanecem prisioneiras, provando que humanistas ainda sabem como valorizar aquilo que criticam ao invés de simplesmente desbancá-lo. E ao mesmo tempo elas têm sido capazes de refletir com honestidade dolorosa sobre suas próprias instituições e práticas, repreendendo sem hesitar suas falhas mas também defendendo apaixonadamente suas virtudes.

Como isso ajuda a responder a questão da utilidade das humanidades? Além das frequentemente citadas vantagens de habilidades verbais afiadas, conhecimento aprimorado de outras culturas e linguagens e habilidades analíticas aumentadas – todas as quais são explicitamente buscadas por empregadores em uma era de globalização neo-liberal – há algo mais intangível e mais poderoso em questão. Ao invés de nos servir refeições confortáveis e suaves para a mente, deixando-nos intocados por aquilo que vivenciamos, as humanidades podem nos compelir a refletir sobre as premissas que tomamos muito rapidamente por certas e os valores que aceitamos acriticamente. O auto-escrutínio impiedoso da última geração de disciplinas humanísticas, mencionada acima, é precisamente um exemplo dessa função. Embora certamente possamos concluir que há muito a conservar e transmitir para a posteridade sobre nossa herança cultural, pode haver também um benefício adicional em nível pessoal, que é capturado por uma carta escrita por Franz Kafka a um amigo: “Se o livro que estamos lendo não nos desperta, como com um soco em nossa cabeça, por que então nós o lemos? Para que ele nos faça felizes? Bom deus, nós seríamos felizes também se não tivéssemos qualquer livro, e tais livros para nos contentar poderíamos escrevê-los nós mesmos, se necessário… Um livro deve ser um machado de gelo para quebrar o mar congelado dentro de nós.” As humanidades, em suma, ajudam-nos a ler tais livros notáveis – e ouvir tais músicas, apreciar tal arte, etc. – com a atenção e o cuidado que eles requerem, e, ao fazerem isso, podem muito bem quebrar o gelo que se formou em nossas mentes e almas. As humanidades podem nem sempre nos ajudar a ter uma vida próspera, embora em muitos casos ela o faça. Mas o que é mais importante, elas podem nos servir poderosamente em nossa luta para ter uma vida significativa.

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Link para o texto original, em inglês.